Por Irla Menezes (UEPB)

A Igreja Ortodoxa como uma instituição independente surgiu com o Cisma do Oriente, que marcou a divisão do Império Romano e foi fruto das diferenças políticas e teológicas entre os cristãos romanos e ortodoxos. Assim, apesar do lugar comum, até certo ponto, na história do cristianismo, as duas Igrejas, no passado e no presente, representam seus fiéis e são representadas de maneiras divergentes.
Em se tratando do Cristianismo Ortodoxo, ele reconhece que suas raízes estão em eventos históricos que podem ser entendidos através da leitura das Sagradas Escrituras, como a Encarnação do Verbo Divino, considerada a primeira grande epifania e início da missão terrestre de Jesus Cristo. Assim sendo, a Palavra e a Tradição se consolidam como os pilares da Igreja Ortodoxa, tendo ortodoxia o significado de ‘’doutrina reta’’ e sendo considerada herança do próprio Cristo.
Ademais, considerando a missão apostólica instaurada com a vinda do Deus Homem parte fundamental de sua Igreja, os ortodoxos dão suma importancia para o papel do Espírito Santo enquanto aquele que, através do espírito pentecostal, dá aos discípulos de Cristo a energia para evangelizar o mundo. Com isso, é através da missão e dos escritos apostólicos contidos no Novo Testamento que os fiéis ortodoxos explicam e orientam sua doutrina.
Nesse cenário, com a expansão da cristandade, a Igreja também foi se expandindo, tanto física quanto teologicamente, enfrentando perseguições e as crescentes diferenças internas à fé no Império Romano. No século III, as cidades de Roma, Alexandria e Antioquia eram consideradas os modelos de comunidades cristãs e com o posterior Édito de Milão, que reconhecia a liberdade religiosa no Império Romano, o número de igrejas aumentou.
Com essa expansão e o futuro Cisma do Oriente, estabelecendo o Império Bizantino, a Igreja se divide entre uma centrada em Roma, sob autoridade do papa, e outra em Constantinopla, sem autoridade central hierarquizada. Os ortodoxos não acreditam na autoridade e na infalibilidade do papa, sendo os bispos de cada igreja responsáveis por tomar decisões dentro de suas próprias comunidades. Assim, a Igreja Ortodoxa passa a se consolidar e se desenvolver no Oriente, se expandido pela Europa Oriental e chegando à Ásia.

Assim sendo, era necessária uma governança que orientasse o funcionamento da Igreja. Com isso, a ortodoxia é constituída por diversas jurisdições eclesiásticas, tendo os cânones da Igreja reconhecido um princípio de divisão territorial para suas comunidades. Logo, criaram-se igrejas autocéfalas, ou seja, de administração livre, e, no passado, foram estabelecidos 5 patriarcados, conhecidos como Pentarquia: Antioquia, Jerusalém, Constantinopla, Alexandria e Roma, tendo este último ‘’caído’’ com o Cisma. Tais patriarcados, ao longo do tempo, lidaram com diversos problemas e foram perdendo ou ganhando relevância, além de terem sido fundandas outras comunidades ortodoxas e novos patriarcados, como o da Rússia e de outros países da Europa Oriental. Assim, apesar de administrativamente livres, todos os patriarcados são ligados e representam uma Igreja só.
As representações de cada igreja possuem status iguais, diferindo em suas funções, e, apesar de pequenas variações ligadas à realidade de cada comunidade ortodoxa espalhada pelo mundo, os ritos são os mesmos e a doutrina é una, sendo, assim, reconhecida a unidade da Igreja Ortodoxa de Cristo. No entanto, apesar da ausência de hierarquia, o Patriarca de Constantinopla é considerado ‘’o primeiro entre os iguais’’, tendo a função de convocar sínodos, balizar as relações entre o clero e representar os ortodoxos no mundo.
No Brasil, os ortodoxos são representados por algumas igrejas espalhadas pelo nosso território, como a Igreja Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Grega Ortodoxa, ambas em São Paulo, além de outras. No entanto, durante as últimas semanas, uma figura interessante surgiu no cenário nacional: Kelmon Luís Souza, candidato à presidência da República pelo PTB. Se apresentando como padre e integrante da Igreja Ortodoxa, o candidato não possui nenhum vínculo oficial com o clero ortodoxo. Segundo nota oficial da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil do dia 14 de setembro de 2022, o falso padre nunca teria participado de nenhum seminário ligado à Igreja Ortodoxa no Brasil, nem na América Latina ou em qualquer outra Igreja irmã. Além disso, a Conferência Nacional dos Bispos no Brasil também lançõu uma nota no dia 30 de setembro de 2022, afirmando que Kelmon ‘’não é sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, sem qualquer vínculo com o a Igreja sob o magistério do Papa Francisco’’.
Nesse cenário, que seria cômico se não fosse preocupante, vemos uma figura se aproveitar das vestimentas, símbolos e até falas que representam a Igreja Ortodoxa para, de alguma forma, inflar sua retórica política e enganar não só a cominudade cristã do país, mas todos os brasileiros, em um momento tão particular da história da democracia nacional. No entanto, não podemos esquecer da seriedade com que a Igreja Ortodoxa trata suas questões e todo a comunidade que esta representa mundo afora, entendendo que a Igreja proclamada como herdeira do próprio Cristo, apesar de descentralizada, é una.
Irla Maria Avelino de Menezes (UEPB)
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do grupo do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Currículo Lattes.
Referências
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esclarecimento: CNBB SE PRONUNCIA SOBRE CANDIDATO CONHECIDO COMO PADRE KELMON. 2022. https://www.cnbb.org.br/esclarecimento-cnbb-se-pronuncia-sobre-candidato-conhecido-como-padre-kelmon/
Igreja Sirian Ortodoxa e de Antioquia no Brasil. Nota de Esclarecimento. 2022. https://www.igrejasirianortodoxa.org/2022/09/nota-de-esclarecimento.html?m=1
Loiacono, M. (2005). A igreja ortodoxa no Brasil. Revista USP, (67), 116-131.
McGuckin, John Anthony (2008). The Orthodox Church: an introduction to its history, doctrine, and spiritual culture. Blackwell Publishing. [P. 5 – 55]
