
Por Marta Lorena Lourenço (UEPB)
“Mesmo o culto contemporâneo da celebridade pode ser compreendido como uma expressão dessa reverência por modelos de “sobre-humano” e de nosso desejo de emulá-los.
Sentir que estamos conectados a essas realidades extraordinárias satisfaz um desejo essencial. Isso nos toca no íntimo, nos eleva por um momento acima de nós mesmos, de modo que parecemos habitar nossa humanidade com mais plenitude do que de costume e nos sentimos em contato com as correntes mais profundas da vida. Se não encontramos mais essa experiência em uma igreja ou em um templo, nós a procuramos na arte, em um concerto de música, no sexo, nas drogas — ou na guerra.”
Karen Armstrong é de origem inglesa, nascida no seio de uma família católica e, após vivenciar uma decepção religiosa, deixou o convento no qual era freira. Além disso, ela estudou literatura inglesa na Universidade de Oxford, tornou-se professora e é autora de diversos livros (The Case for God. Vintage. 2009; The Great Transformation: The Beginning of Our Religious Traditions. 2006.; The Battle for God: Fundamentalism in Judaism, Christianity and Islam. 2000.; A Short History of Myth. 2005.). Em “Campos de sangue: Religião e a História da Violência” (2016, Companhia das Letras) ela busca respostas para a ligação entre religião e violência, essas que se apresentam juntas, possivelmente, desde as primeiras civilizações: Seria, então, a religião violenta? Quanta culpa pela história da violência humana podemos atribuir à religião em si?
Ao propor tal questionamento e reflexão, é válido analisar, na mesma perspectiva evolucionista da Armstrong, que o homo sapiens é o último tipo de humano da espécie, todos os outros foram extintos. Nesse sentido, não se sabe ao certo porque só restaram os homo sapiens, é sugerido uma série de fenômenos naturais, como as mudanças climáticas. Contudo, sabe-se também que se essa espécie resistiu até o atual momento, é por obter uma série de habilidades, dentre elas a capacidade de matar. A violência faz parte da história da humanidade, o ser humano parece sempre encontrar motivos para o derramamento de sangue e, para tentar entender isso em uma linha sequencial no tempo, normalmente se pensa nos primeiros primatas como ponto de partida.
Nas primeiras páginas do livro, logo se encontra justamente referências aos primatas. Armstrong usa o desenvolvimento da neuroanatomia para explicar a violência, ou a não-violência. Com isso, o sistema límbico motivou comportamentos inéditos, dando a esses seres sensibilidade, pois tinham a capacidade de gostar de outras criaturas além deles próprios e de se importar com elas, nascendo provavelmente um dilema moral, já que adoravam a excitação e a intensidade da caça, o que justifica a guerra como um dos mais antigos gatilhos de experiências de êxtase.
“Não há registro de civilização que não seja ao mesmo tempo registro de barbárie”.
Walter Benjamin
“Até o período moderno, a religião permeava todos os aspectos da vida, incluindo a política e a guerra, não porque os eclesiásticos ambiciosos “misturaram” duas atividades essencialmente distintas, mas porque as pessoas queriam dar sentido a tudo o que faziam. Todas as ideologias estatais eram religiosas. Os reis da Europa que lutaram para se libertar do controle papal não eram “secularistas”e eram reverenciados como semidivinos. Todos os impérios bem-sucedidos afirmaram ter uma missão divina; consideraram os inimigos maus, perdidos ou tirânicos; tinham certeza de que beneficiariam a humanidade.”
“Somos criaturas que buscam sentido e, diferentemente de outros animais, se não conseguimos ver sentido em nossa vida, caímos em desespero com facilidade.”
A autora supõe a agricultura como um sistema que contém uma violência inconstitucional, é uma forma de linguagem vigorosa, ela exemplifica com diversos povos, a exemplo os sumérios e os chineses, em capítulos distintos. Os mitos religiosos antigos possui, em sua maioria, divindades agressivas. Essa agressividade é vista como característica daquele que é superior, que usa da força e da intimidação para manter a ordem. Assim também é o Estado, nesse caso, as comunidades políticas. A política e a religião nunca se separavam, as duas tinham origem na barbárie e como objetivo mantê-la sob controle e unir os inseridos nela, mas principalmente, dar sentido às pessoas. Dessa maneira, uma guerra política, para dominar outro povo, não parecia algo injusto, pois havia um propósito divino, é como a difusão do zoroastrismo: bem e mal; para cada um o mal era o inimigo.
“O desejo humano de encontrar um sentido último é tão arraigado que nossas instituições seculares, em especial o Estado-nação, adquiriram uma “aura” religiosa quase de imediato, embora tenham sido menos competentes do que as velhas mitologias em ajudar as pessoas a encarar as realidades assustadoras da existência humana para as quais não há respostas fáceis”.
“Como escrevi detalhadamente em outro lugar, o fundamentalismo, seja judeu, cristão ou muçulmano, não é em si um fenômeno violento. Apenas uma minúscula parcela dos fundamentalistas comete atos de terror; a maioria simplesmente tenta viver uma vida de devoção em um mundo que parece cada vez mais hostil à fé, e quase todos começam quando se sentem atacados pelo establishment secular e liberal.”
Ao decorrer do livro, a autora apresenta considerações à sociedade hodierna, alguns pontos são exibidos nesses dois trechos. O primeiro faz referência à herança do espírito religioso, mas não a religião em si. Outrossim, tanto as duas grandes guerras mundiais, quanto os conflitos de países de formação recente, como os das Américas, usaram do nacionalismo para dar sentido às guerras para seu povo. Em outra perspectiva, o segundo afirma que não é regra o fanatismo religioso causar atos de violência. Destarte, esses argumentos servem para pensar que a religião é usada como instrumento para atos de atrocidades, mas que não existe nela, essencialmente, violência.
“Jesus pregou um reino inclusivo e de compaixão que desafiava o éthos imperial, e recebeu como paga a crucificação”
“Na história da religião, a luta pela paz foi tão importante quanto a guerra santa. Religiosos descobriram métodos engenhosos para lidar com o machismo agressivo do cérebro reptiliano, reduzir a violência e construir comunidades respeitosas, que valorizem a vida.”
Em suma, a violência sempre parte do indivíduo, dado o estímulo certo, o ser humano persegue, admira, julga, ama e odeia. Diante disso, o que a paixão pela fé, ou qualquer outro tipo de fanatismo pode fazer, é despertar no homem impulsos violentos, que são reflexos dos antepassados da humanidade. No entanto, essa mesma fé pode estimular a empatia e a compaixão.
Campos de sangue: Religião e a História da Violência é um livro com um panorama histórico e cheio de detalhes, porém com uma leitura muito leve e agradável, o que é notável nos trechos citados. Desse modo, é uma obra que não será em nenhum momento decepcionante para quem gosta de reflexões filosóficas sobre a formação da sociedade e o comportamento humano, por isso também é importante para se pensar relações sociais e internacionais.
