Por Joyce Silva e Kamila Félix (UFPB)
Em dezembro de 2019, os primeiros casos do Covid-19 foram anunciados pelo governo chinês e, em março de 2020, a OMS classificou a doença como uma pandemia devido ao aumento do número de casos e a disseminação da doença a nível global. Até o começo de abril, constata-se que temos cerca de 1.400.000 casos confirmados e 80.000 mortes em todo o mundo [1]. Com a rápida expansão da doença e o aumento dos casos em todo o globo, as autoridades de saúde tiveram que tomar certas medidas que mudaram drasticamente a vida de todos. A intenção inicial é que a curva de contágio seja a menor possível para que o sistema de saúde não tenha uma sobrecarga e, posteriormente, entre em colapso. Nesse sentido, a sociedade foi instruída a reforçar hábitos de higiene, permanecer em seus lares e evitar aglomerações de pessoas.
Seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) , as atividades comerciais foram restritas, estádios, escolas e universidades foram fechados. Igualmente, as Igrejas e os templos religiosos foram impedidos de realizar suas celebrações públicas, tendo então que se adaptar a uma dinâmica totalmente nova. Considerar tais mudanças implica adotar novos posicionamentos de diversos atores. Nessa perspectiva, é importante compreender as práticas de atores religiosos [2] diante desse período. Então, qual o comportamento de líderes religiosos frente à pandemia e de que forma esses líderes podem exercer um papel positivo ou negativo para o Estado?
Apesar das medidas de isolamento social, as Igrejas não foram totalmente paralisadas. As celebrações passaram a ser promovidas por meio de plataformas digitais e, em todo o mundo, as pessoas passaram a acompanhar essas transmissões virtuais e a fazerem orações individuais no interior de suas casas ou em grupos nas varandas e sacadas dos seus apartamentos. A partir dessa perspectiva, relacionada às crenças e ritos, é possível observar que a fé se mantém resiliente e o apoio da religião configura-se como um ato de busca por conforto e estabilidade em momentos de crise.
A título de exemplificação relacionada ao papel positivo da religião nesse processo, o KAICIID, uma organização intergovernamental que promove o diálogo inter-religioso, vem buscando proporcionar o diálogo inter-religioso junto a líderes religiosos e outras organizações religiosas a fim de conscientizar a população sobre os riscos do Covid-19. Segundo a própria organização, o intuito é que ocorra uma cooperação multicultural e multirreligiosa no enfrentamento da doença.
Atendendo as necessidades da comunidade local, no Brasil, uma enorme rede de solidariedade e ajuda aos mais necessitados tem se formado a cada dia. A Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure) recomendou que os líderes religiosos aproveitassem esse momento para demonstrar as virtudes cristãs como a fraternidade e a compaixão e que se engajassem no trabalho de assistência aos mais vulneráveis [3]. Em Caruaru, agreste pernambucano, a plataforma “Transforma Caruaru” uniu católicos, evangélicos, espíritas, maçons e até a comunidade Hare Krishna do município, em um único propósito de ajudar aos mais carentes [4]. O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) declarou que o mais importante neste momento deve ser a cumprimento do isolamento social. Assim, muitos padres e bispos estão utilizando outras medidas para chegar até os fiéis, sejam por meio da transmissão de missas por plataformas virtuais ou até mesmo o percurso pelas ruas em carros de som celebrando missas e, assim, evitando dessa forma a aglomeração de pessoas.

No último dia 27 de março, um momento histórico foi protagonizado pela Igreja Católica. Nesse dia, o papa Francisco promoveu um momento de oração no adro da Basílica de São Pedro. Famosa por ser repleta de fiéis de todas as partes do mundo, a Praça São Pedro estava completamente vazia e a autoridade máxima da Igreja Católica realizou a sua celebração e deu a benção Urbi et Orbi, na intenção do fim da pandemia do Covid-19. Em uma de suas falas, o papa reforçou a concordância com as autoridades de saúde e governamentais ao anunciar :
Façamos sentir a nossa proximidade às pessoas mais sozinhas e com mais dificuldades. A nossa proximidade aos médicos, aos profissionais de saúde, enfermeiros e enfermeiras, voluntários… A nossa proximidade às autoridades que devem tomar medidas duras, mas para o nosso bem. a nossa proximidade às polícias, aos soldados, que nas ruas procuram manter sempre a ordem, que se realizem as coisas que o governo pede para o bem de todos nós. [5]
Em um dos países que mais sofrem com a disseminação da doença e um grande número de mortes (Itália), recomendações como essa renovam a esperança de fiéis e endossam as instruções para conter o avanço do novo coronavírus.
Desvio do padrão: caminhando no sentido contrário
Apesar do grande número de líderes religiosos contribuírem para a diminuição da propagação do COVID-19, seja com a execução de uma série de adaptações dos ritos religiosos tradicionais ou até mesmo com o endosso das informações fornecidas por autoridades competentes de saúde – sustentando a realização de isolamento por seus fiéis, alguns outros líderes religiosos não estão seguindo esse tipo de conduta e há diversos relatos desses desvios ao redor do mundo.
Por exemplo, em Dirfys-Messapia, na Grécia, ainda no mês de março, um padre foi preso por agir contrariamente às recomendações de proibição da abertura de templos em vigor até o dia 30 de março (e posteriormente estendida até dia 11 de abril) [6]. Em Montenegro, em março, a polícia deteve 11 pessoas no mosteiro Reževići por também violar as recomendações de evitar aglomerações para evitar a propagação e contágio da doença por outras pessoas [7]. Em Uganda, no fim do mês de março, um padre junto com outros sete católicos foram presos por celebrar uma missa numa paróquia em Mpigi. Na Índia, em Querala, dois padres, dois seminaristas e três irmãs também foram detidos por celebrações de missa, segundo a imprensa local [8]. Nos Estados Unidos, na Flórida, um pastor também se recusou a seguir as recomendações e também foi preso.
Também há relatos no Brasil. Assim, no começo de abril, a polícia civil do Rio Grande do Sul começou a investigar uma igreja evangélica por crime de charlatanismo – previsto no artigo 283 do Código Penal – pela divulgação de um cartaz o qual anunciava que a “unção com óleo consagrado no jejum imuniza contra qualquer epidemia, vírus ou doença”. Apesar disso, os policiais não conseguiram identificar o crime na transmissão do culto [9]. Além desse caso, em março, alguns pastores ligados à igrejas evangélicas e católicas brasileiras também foram criticados por serem contrários ao fechamento de igrejas e templos [10]. Em relação ao descumprimento das ordens de isolamento por líderes religiosos brasileiros, não foi noticiado nenhuma prisão.

Apesar de não ser o posicionamento oficial das comunidades de fé das religiões que representam, os líderes religiosos possuíram comportamentos destoantes, dando margem à uma série de riscos à saúde, visto que uma das advertências pelos profissionais de saúde e governantes é evitar a aglomeração de pessoas. Ao entender que líderes religiosos conseguem exercer determinada influência na comunidade a qual estão inseridos, é fundamental que os posicionamentos estejam alinhados às normas de saúde pública frente à pandemia que nos assola. É importante frisar que até o momento não há um número preciso dos casos que infringem às ordens de saúde pública e, portanto, podemos considerá-los como casos excepcionais. Dentre os países citados na matéria com casos desviantes, os Estados Unidos apresentam o maior número de casos confirmados e número de mortos, principalmente em Nova York – o Brasil possui pouco mais de 12 mil casos confirmados.
Por Joyce Kelly Costa Silva (Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba) e Kamila Alves Félix (Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba)
Este texto não deve ser reproduzido sem permissão.
[1] Essa matéria foi escrita em 07 de abril e, segundo a plataforma de dados do Center for Systems Science and Engineering da Universidade Johns Hopkins, os números informados eram os relatados na matéria. Para mais informações, acessar: https://gisanddata.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html?fbclid=IwAR2CjfcP6PMvksnNW-tzoZflqlqr_jCjGjwSyHWTL4zNC9kDogmXmWggomY#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6
[2] Existem várias definições para caracterizar um ator religioso. A definição utilizada nessa matéria está em consonância com o apresentado por Nukhet Sandal em Religious Leaders and Conflict Transformation: Northern Ireland and Beyond (2017), isto é, por definição, os atores religiosos podem ser considerados praticantes de uma determinada religião com expertise em conhecimentos teológicos, podendo ser um líder religioso ou organizações baseadas na fé. Ao longo do texto, será amplamente empregado o termo líder religioso.
[3] GAZETA DO POVO. Juristas evangélicos convocam igrejas para ajudar pequenos empresários e pessoas vulneráveis. 2020. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/juristas-evangelicos-convocam-igrejas-para-ajudar-pequenos-empresarios-e-pessoas-vulneraveis/
[4] G1 CARUARU. Coronavírus: ‘Rede de Solidariedade’ é criada para ajudar pessoas prejudicadas pelo isolamento social, em Caruaru. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2020/03/30/coronavirus-rede-de-solidariedade-e-criada-para-ajudar-pessoas-prejudicadas-pelo-isolamento-social-em-caruaru.ghtml
[5] VATICAN NEWS. Uma Praça Cheia de Nossas Preces. 2020. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-03/papa-francisco-oracao-praca-sao-pedro-coronavirus.html
[6] EKKLISIA ONLINE. ΣΥΝΕΛΉΦΘΗ ΙΕΡΈΑΣ ΓΙΑΤΊ ΚΟΙΝΏΝΗΣΕ ΠΙΣΤΟΎΣ ΣΕ ΧΩΡΙΌ ΤΟΥ ΔΉΜΟΥ ΔΙΡΦΎΩΝ-ΜΕΣΣΑΠΊΩΝ. 2020. Disponível em: https://www.ekklisiaonline.gr/nea/synelifthi-iereas-giati-kinonise-pistous-se-chorio-tou-dimou-dirfyon-messapion/
[7] BALKAN INSIGHT. Montenegro Detains Priest for Defying Ban on Gatherings. 2020. Disponível em: https://balkaninsight.com/2020/03/30/montenegro-detains-priest-for-defying-ban-on-gatherings/
[8] CATHOLIC HERALD. Priests arrested for public Mass celebrations during coronavirus shutdowns. 2020. Disponível em: https://catholicherald.co.uk/priests-arrested-for-public-mass-celebrations-during-coronavirus-shutdowns/
[9] 20 MINUTES FRANCE. Brésil: Une église évangélique promet d’« immuniser » contre le coronavirus, une enquête ouverte. 2020. Disponível em: https://www.20minutes.fr/monde/2732499-20200304-bresil-eglise-evangelique-promet-immuniser-contre-coronavirus-enquete-ouverte
[10] PIRES, Breiller. Igrejas desafiam recomendação de suspender missas e cultos diante da pandemia do coronavírus. El País Brasil. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-20/igrejas-desafiam-recomendacao-de-suspender-missas-e-cultos-diante-da-pandemia-do-coronavirus.html

