
Por Irla Maria Avelino de Menezes (UEPB / Geprir)
A China, em toda sua grandiosidade territorial e populacional, é lar para mais de 50 etnias e, não podendo ser diferente, é um dos países mais culturalmente diversos do globo. Dentre essas etnias estão os uigures, mulçumanos que falam uma língua próxima ao turco e vivem, em sua maioria, em Xinjiang, uma região autônoma localizada no noroeste da China, fazendo fronteira com países da Ásia Central, além da Rússia e da Mongólia. As raízes turcomanas dessa etnia fazem com que a mesma se distancie da cultura e dos costumes observados na maior parte do território chinês, aproximando-a dos países centrais da Ásia que também são mulçumanos. A história dos uigures no continente é antiga, sendo datada antes mesmo do surgimento do Islã, no século VII. Além disso, Kashgar -uma cidade da região- foi um importante entreposto da Antiga Rota da Seda, ligando a China à Rússia.
No ano de 1949, após a Revolução Chinesa, o exército comunista de Mao controlou a região e o governo central chinês passou a promover uma migração em massa da etnia Han, maioria étnica na China, para a região, o que desestabilizou a vida da população de Xinjiang, pois os uigures que ali viviam atestavam que as atividades comerciais passaram a ser dominadas pelos Hans, que, por conseguinte, conseguiam controlar a economia da região, gerando uma desigualdade social. Ademais, os uigures acusam o governo chinês de limitar suas atividades religiosas e culturais, o que não é imposto para a parcela Han. Nesse viés, um sentimento de separatismo, fomentado pelo nacionalismo, começou a se espalhar pelos uigures, que pretendiam estabelecer o Turquestão Oriental, uma região independente da China e ligada aos seus vizinhos mulçumanos. De fato, aspectos como a língua, a cultura e a religião são de extrema importância para o nacionalismo uigur e para a identificação dessa etnia com os povos da Ásia Central.
Desse modo, os últimos anos do século XX e os primeiros do século XXI foram marcados pelo acirramento das tensões na região. Os protestos que tomaram as ruas de Xinjiang – principalmente de Urumqui, sua capital- nesse período foram violentos, tendo sido reportados ataques com bombas e incêndios em regiões comerciais. O ápice dos conflitos entre uigures, hans e o governo chinês aconteceu em 2009, quando uma onda de protestos causou o caos na região, deixando centenas de mortos e mihares de feridos. Em consequência disso, o governo de Pequim, endossado pela política de caça ao terror do Presidente Bush, dos EUA, que convocava todos os países do mundo a lutar contra o terrorismo, viu nessa oportunidade um meio de perseguir os dissidentes uigures, chegando até a afirmar que os mesmos tinham ligação com a Al-Qaeda e que teriam sido treinados por terroristas no Afeganistão. Essa perseguição ao terror colocava na mira dos governos do mundo principalmente os seguidores da religião islâmica -dado o contexto dos atentados de onze de setembro de 2001-, seguida pelos uigures e apontada pelo governo chinês como fomentadora de ideais radicais e separatistas.
A verdadeira caça às bruxas fez com que Xinjiang se tornasse uma das regiões mais vigiadas do mundo e o principal objetivo do governo chinês é apagar toda e qualquer forma de sentimento separatista e extremista que possa estar presente na sociedade uigur. Dessa forma, considerados inimigos do Estado, os uigures passaram a ter suas vidas totalmente controladas pelo Partido Comunista, que afirma que a vigilância extrema sob a região autônoma está a serviço da segurança e da unidade nacionais. Assim, as ruas de Xinjiang são intensamente controladas por policiais, bem como postos de controle e fiscalização são encontrados em diversos pontos comerciais. A população uigur é vigiada quase que 24 horas por dia por sofisticados sistemas de segurança, que se encontram em cada mísero ponto das cidades da região. Se o Partido Comunista já havia implementado as mais diversas tecnologias para garantir a vigilância do povo chinês, em Xinjiang tais medidas atingem níveis surpreendentes de controle populacional.
Porém, como se não bastassem as tentativas de abafar o sentimento separatista e de hipervigiar a população mulçumana da região, o governo central foi além: enormes centros foram construídos com o intuito de reeducar os uigures e exterminar de suas mentes possíveis sentimentos extremistas. O governo chinês afirma que esses centros educacionais são totalmente voluntários e que apenas oferecem atividades como pintura e aulas de mandarim, tudo isso com o objetivo de aproximar mais os uigures dos costumes chineses e os libertar das amarras extremistas. Bom, para a comunidade internacional esses centros estão longe de serem voluntários e caracterizam um ”genocídio cultural”, como afirma Nury Turkel -que cresceu em Xinjiang e hoje mora nos Estados Unidos-, um ativista contra as medidas chinesas para a região, em sua entrevista para o jornal The Economist. Para ele, o maior propósito do governo central com esses centros de reeducação é acabar com a identidade uigur.
Dessa maneira, ruas, vilas e centros comerciais de Xinjiang começaram a esvaziar pouco a pouco ao passo que mais de 1 milhão de uigures (quantidade estimada por pesquisadores) foram levados de suas casas sem ao menos entenderem o porquê de estarem sendo separados de suas famílias. Muitas cidades da região viraram quase cidades fantasmas, com casas e locais abandonados. As grandiosas estátuas que celebram os feitos do Partido Comunista Chinês ou que enfatizam uma sociedade feliz e harmônica presentes em várias praças da região hoje não servem como apelo à harmonia social e como intimidação para tantos uigures. Além disso, crianças raramente são vistas brincando nas ruas, pois elas também passaram a ser alvo do governo central, sendo enviadas para ‘’escolas’’ que, na verdade, são centros similares aos que seus pais foram trancafiados, porém com um intuito ainda mais avassalador: ensiná-las desde a mais tenra idade a esquecerem suas raízes e se tornarem ‘’chineses por completo’’.
Entretanto, como se a situação em Xinjiang já não fosse instável e preocupante o bastante, outro fator coloca em xeque as investidas chinesas na região: o ambicioso projeto do Belt and Road Initiative, também conhecido como a Nova Rota da Seda chinesa, que, através de uma mega infraestrutura, liga a Ásia aos continentes europeu e africano por meio de rotas e portos. As rotas foram planejadas para ligarem desde Pequim e Moscou a Djibouti, um pequeno país da África Oriental, e Astana, capital do Cazaquistão. E bem no centro desse emaranhado de ferrovias, portos, linhas de trem de carga e do corredor econômico que liga a China ao restante de seus parceiros econômicos está, justamente, Xinjiang, importante no passado e promissora para o futuro da gigante asiática. Como já exposto, Kashgar havia sido uma importante região para a Rota da Seda milenar, e hoje, Urumqi se mostra como o ‘’novo’’ portal de acesso da China à Ásia Central. Além disso, a Bacia do Tarim, a maior bacia hidrográfica sem saída para o mar do mundo, localiza-se em Xinjiang, também sendo um importante depósito petrolífero e de gás natural.

Logo, pode-se entender que o controle abusivo de Pequim sobre a região autônoma também possui um viés econômico e, dado todo o contexto do movimento separatista uigur em prol da instauração do Turquestão Oriental, a China e o novo país -em uma situação hipotética- dificilmente estabeleceriam uma relação de parceria, o que comprometeria a exploração chinesa nessa localidade. Assim, perder a autoridade sobre Xinjiang, além de consumar uma desintegração da unidade territorial nacional, também acarretaria em perdas econômicas expressivas para o país que planeja se tornar uma superpotência mundial nos próximos anos.
Infelizmente, e devido à presença de tantas etnias e religiões convivendo em um mesmo espaço -que acaba sendo grande apenas geograficamente e tão pequeno se considerarmos as relações interpessoais que atravessam o dia a dia nessa era globalizada- os uigures não são os únicos a sofrerem com perseguições na China. Assim, foi com base nesse contexto que o observatório para a democracia no mundo Freedom House deu uma nota 0 de 4 à China quando analisados os níveis de liberdade religiosa no país, em especial devido à caça do PCC a seguidores do islamismo, do budismo e da prática espiritual Falun Gong, entre outras religiões praticadas em menor escala. Em suma, é fato que a situação dos uigures na China está longe de ser controlada, principalmente se o governo Chinês continuar a impor uma lavagem cerebral a essa etnia. Como em boa parte da Ásia, misturar religião, cultura, economia e política é, sem dúvidas, algo muito complexo e que envolve centenas de milhares de anos de história e formação da identidade dos povos desse continente tão vasto. Apagar isso seria fechar os olhos para o que a humanidade tem de mais belo: sua diversidade.
Irla Maria Avelino de Menezes (UEPB)
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (GEPRIR – UEPB). Currículo Lattes.
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