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Para além das narrativas orientalistas: o que é o feminismo islâmico e qual seu propósito

Por Ana Gabriela Costa Reis (PPGRI UEPB / Geprir UEPB)

Especialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001 e com o início da Guerra ao Terror declarada por George W. Bush (2001-2009), as mulheres árabe-muçulmanas passaram a compor um espaço evidente na retórica das relações internacionais, fazendo parte do discurso da geopolítica internacional. Foi fortalecido a partir dessa data, ainda, os estereótipos relacionados a elas, principalmente o que se atribui ao Islã como responsável pela submissão de mulheres na região (Charrad, 2011).

O Ocidente passou a se interessar pelas crenças religiosas e o tratamento das mulheres em países islâmicos, e o discurso de libertação e salvação das muçulmanas passou a entrar em pauta (Abu-Lughod, 2002). Essa ideia de libertação implica na pressuposição de que elas não possuem poder de agência, são submissas e subjugadas, e que a utilização do véu fere as noções de liberdade de vestimenta.

Laura Bush, ex-primeira dama dos Estados Unidos, declarou em 17 de novembro de 2001 que “Por causa de nossos recentes avanços militares em grande parte do Afeganistão, as mulheres não estão mais presas em suas casas. Elas podem ouvir música e ensinar suas filhas sem medo de punição. Contudo, terroristas que ajudaram a governar aquele país agora conspiram e planejam estar em muitos outros, e devem ser detidos. A luta contra o terrorismo é também uma luta pelos direitos e pela dignidade das mulheres” (Washington Post, 2001, tradução da autora).

Fonte: UCSB

Seria o Islã, então, o responsável pela opressão das mulheres muçulmanas? Ou o papel que a religião islâmica ocupa social, política e religiosamente na vida dessas mulheres, seria uma consequência de ações predominantemente de homens à frente de estruturas políticas e religiosas em países islâmicos? E qual o lugar do Ocidente na construção da imagem das mulheres muçulmanas no mundo?

De acordo com o feminismo islâmico, o Islã não é o responsável pela posição que as mulheres ocupam na sociedade. Na verdade, isso seria resultado das interpretações literais dos escritos religiosos islâmicos, que, em sua maioria, eram e são realizadas por homens. Nesse sentido, sua principal proposição é justamente a contestação às interpretações literais das escrituras religiosas do Islã, uma vez que são elas que têm impacto direto e negativo na vida das mulheres (Abu-Lughod, 2013). Além disso, também buscam a recuperação do ideal da umma (comunidade de todos os adeptos ao Islã no mundo) como uma esfera comum a mulheres e homens (Lima, 2017).

O principal objetivo desse movimento político-religioso, portanto, é a reinterpretação e releitura dos escritos religiosos, como Corão, Xaria e os Ahadith, e utilizam deles para reforçar que a religião não possui caráter patriarcal e opressor, mas que a problemática reside na cultura do preconceito que está enraizada e é responsável por colocar as mulheres muçulmanas sob situação de inferioridade (Treacher, 2003). A reinterpretação e releitura a qual elas se referem se baseiam nas premissas islâmicas de ijtihad (a interpretação dos juristas para produzir uma explicação racional das fontes religiosas islâmicas), da tafsir (explicação crítica sobre o Corão), os Ahadith (histórias do profeta Muhammad), e a fiqh (jurisprudência do Islã) (Lima, 2017).

Destarte, a reinterpretação e releitura dessas fontes sagradas se faz necessária porque prescrições corânicas, por exemplo, tiveram seu significado simplificado. À época da Revelação ao profeta Muhammad, muitos ensinamentos e pautas promoviam a emancipação social, além de garantirem a igualdade (nos termos do Islã) para todos os indivíduos. Dentre as prescrições que foram deturpadas ao longo do tempo pelos intérpretes dos textos sagrados, estão os casos de poligamia, divórcio e herança, os quais podem ser ressignificados a partir do ijtihad, de acordo com o feminismo islâmico (Hajjami, 2008).

Assim, esse feminismo que foi anunciado oficialmente na década de 1990 tendo como países precursores o Egito, Turquia e Marrocos, fez com que o ativismo de mulheres muçulmanas aumentasse significativamente a partir de então (Ahmed, 1992). Esse ativismo passa a ensejar, desse modo, o reconhecimento da importância das mulheres na construção de sociedades islâmicas mais justas e equitativas.

Os princípios que instituíram as bases das relações sociais no Islã contribuem para sustentar o movimento, de acordo com Aïcha El Hajjami (2008). Isso ocorre porque, de acordo com esses princípios, deve-se existir igualdade entre os seres humanos, sem qualquer tipo de dominação ou discriminação por raça, sexo, classe, e que o ser humano deve ser valorizado apenas por sua compaixão e boas ações. Além disso, as relações sociais no Islã também se baseiam na ideia de que os seres humanos, enquanto representantes de Deus na terra, são iguais em sua responsabilidade pela vida na terra, o respeito pelas outras criaturas e a preservação do ambiente.

Assim, esse feminismo que surge em paralelo às práticas fundamentalistas do Islã (comumente denominado islamismo), defende que há uma construção social e histórica de submissão das mulheres no mundo muçulmano, e que, tendo o islamismo como um dos principais motivadores já que ele obstaculiza a integração de mulheres na sociedade, passa-se a lutar por direitos equitativos e por liberdades (Moghissi, 2002).

Para a finalidade desse texto, o fundamentalismo islâmico surge como reação à modernidade ocidental, sustenta a ideia da existência de um Estado islâmico, e se caracteriza por interpretar irrestritamente documentos sagrados como forma de justificar seus atos (Fox; Sandler, 2004). Há subdivisões de objetivos dentro deste fundamentalismo, e dentre eles, existem os grupos que defendem a criação de normas sociais religiosas, o que os leva a se concentrarem na reforma da conduta individual. Esses grupos afetam diretamente as mulheres, uma vez que eles podem estar mais alinhados a questões como segregação sexual, produção cultural e até mesmo à conduta moral (Ali; Leaman, 2008). Assim, o feminismo islâmico se opõe ao fundamentalismo, dentre muitas razões, em função de sua pressuposição de segregação sexual e a interpretação irrestrita dos escritos sagrados do Islã.

Fonte: EPA

Diante do exposto, o sentimento de superioridade existente no Ocidente é reforçado, por exemplo, a partir da noção criada por ele de salvador e libertador das mulheres árabe-muçulmanas, o que deve ser contestado. Entende-se que é necessário compreender os movimentos particulares de cada sociedade a partir de sua própria lente e realidade. Pressupor que determinado grupo precisa da libertação e salvação ocidental (neste caso, as mulheres árabe-muçulmanas) faz com que seus movimentos sejam minimizados, subestimados e tipificados. 

A tendência do Ocidente de interpelar vozes e sujeitos de regiões não-ocidentais promove narrativas orientalistas, ricas em estereótipos. No caso das mulheres árabe-muçulmanas, não é diferente. O feminismo islâmico é apenas um dos exemplos da agência das mulheres no mundo árabe-islâmico, e cai por terra, por exemplo, a ideia ocidental de que se elas utilizam véu, significa falta de agência ou submissão. Com efeito, neste movimento específico, o véu não pode ser confundido com repressão, uma vez que ele pode significar muito mais agência do que a falta dela. 

Por fim, verifica-se que o Islã não é uma religião que se contrapõe à equidade de gênero, mas que a cultura do preconceito e o sistema enraizado em que homens detêm poder nas sociedades islâmicas é o que obstaculiza a inserção das mulheres na sociedade. Ademais, o feminismo islâmico não deve ser compreendido e analisado a partir de uma ótica ocidental, dado sua complexidade e heterogeneidade, e que, ao invés disso, é necessário analisá-lo considerando suas limitações e diferenças. Com isso, passa-se a legitimar a existência de fenômenos e movimentos particulares de cada sociedade, e não a priorizar e enviesar interpretações.


Ana Gabriela Costa Reis é Mestranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação Em Relações Internacionais – PPGRI UEPB, compõe o Grupo de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião. Suas áreas de interesse são: Feminismo Islâmico, Feminismo Árabe, Pós-colonialismo, Oriente Médio e Norte da África. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/3216450137887300. Contato: anagabrielar7@gmail.com


REFERÊNCIAS

ABU-LUGHOD, Lila. Do Muslim Women Need Saving?. Massachusetts: Harvard University Press, 2013.

ABU-LUGHOD, Lila. Do Muslim Women Really Need Saving?. Anthropological Reflections on Cultural Relativism and Its Others. American Anthropologist, v. 104, n. 3, p. 783-790, 2002.

AHMED, Leila. Women and gender in Islam. 2 ed. New Haven: Yale University Press, 1992.

ALI, Kecia; LEAMAN, Oliver. Islam: The Key Concepts. Routledge: Londres e Nova Iorque, 2008.

CHARRAD, Mounira. Gender in the Middle East: Islam, State, Agency. Annual Review of Sociology, v. 37, p. 417-437, 2011.

FOX, Jonathan; SANDLER, Shmuel. Bringing Religion into International Relations. New York: Palgrave MacMillan, 2004.

HAJJAMI, Aïcha El. A condição das mulheres no Islã: a questão da igualdade. Cadernos Pagu, v. 30, p. 107-120, 2008.

LIMA, Cila. Feminismo islâmico: mediações discursivas e limites práticos. Tese de doutorado para o Programa de História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2017.

MOGHISSI, Haideh. Feminism and Islamic Fundamentalism: the limits of postmodern analysis. London & New York: Zed Books, 2002.

TREACHER, Amal. Reading the Other: women, feminism, and Islam. Journal of Studies in Gender and Sexuality, v. 4, n.1, pp. 59-71, 2003.

WASHINGTON POST. Laura Bush on Taliban Oppression of Women. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/wp-srv/nation/specials/attacked/transcripts/laurabushtext_111701.html. Acesso em: 29 de abril de 2021. 

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