Debates

Ahmet Kuru: “Desmantelar o ‘Estado ulemá’ é crucial para o futuro dos países de maioria muçulmana”

Por Ahmet Kuru (San Diego State University)
Trad.: Jéssica Rogalsky (CEPRIR)

O texto abaixo é uma tradução do material publicado originalmente aqui.

Opinião: Ao invés de somente culpar o Islã ou o colonialismo do Ocidente, sociedades muçulmanas deveriam praticar uma crítica auto-reflexão e desmantelar o “Estado ulemá” para verdadeiramente abordar os problemas políticos e socioeconômicos, escreve Ahmet T. Kuru.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, falou à imprensa após realizar a oração de sexta-feira em Hz. Mesquita Ali no distrito de Uskudar em Istambul, Turquia, em 24 de setembro de 2021. [Getty]

Em Setembro de 2021, uma casa turca foi aberta em Nova Iorque com uma alta cerimónia de Estado que incluiu o Presidente Tayyip Erdogan. A cerimonia comecou com uma oracao feita pelo principal clérigo islâmico – o presidente da Direcção de Assuntos Religiosos, que controla 80.000 mesquitas. A estatura política recentemente crescente deste clérigo na Turquia simboliza o aprofundamento da parceria entre académicos/clérigos islâmicos (ulemá) e o regime de Erdogan. 

A Turquia foi conhecida durante cerca de um século como o Estado mais assertivamente secularista, com uma sociedade de maioria muçulmana. Mesmo nesse caso, a aliança ulemá-Estado foi recentemente fortalecida. Entretanto, no Afeganistão, o Talibã, uma organização liderada pelos ulemás, retomou o poder. Sob o regime talibã, os ulemás não são simplesmente aliados do Estado; eles são “o Estado”, controlando os poderes executivo, legislativo e judicial.

Existem 50 países de maioria muçulmana no mundo. A Turquia tem a mais longa experiência de Estado secular e o Afeganistão tem agora a mais profunda experiência teocrática (junto com o Irã). Em muitos outros países de maioria muçulmana, as alianças entre ulemás e estados mostram uma variação. Mas a característica comum dessas alianças é que todas elas complicam os esforços de democratização e de desenvolvimento.

“O que explica a lacuna entre o brilho histórico inicial do mundo muçulmano e a crise contemporânea?”

De 50 países de maioria muçulmana, somente sete são democracias eleitorais. Países muçulmanos também demonstram um menor nível de desenvolvimento, que refletem em índices socioeconômicos como PIB per capita, expectativa de vida, anos de escolaridade e taxa de alfabetização, em comparação com a média mundial. No seu conjunto, muitos países muculmanos sofrem um ciclo vicioso de autoritarismo e subdesenvolvimento.

Desafios contemporâneos em países muçulmanos parecem ainda mais intrigantes quando consideramos o progresso socioeconômico e científico em seu passado. Particularmente, entre os séculos VIII e XI, o mundo muçulmano produziu muitas das maiores cidades do mundo e importantes filósofos. Era muito mais desenvolvido do que a Europa Ocidental na época. 

O que explica a lacuna entre o brilho histórico inicial do mundo muçulmano e as crises contemporâneas? Existem duas explicações generalizadas: o Islã e o colonialismo ocidental. Ambas são inúteis.

Culpar o Islã como uma barreira para o progresso não explica as conquistas científicas e socioeconômicas dos primeiros muçulmanos. Durante quatro séculos, sociedades muçulmanas tiveram classes intelectuais e econômicas dinâmicas que estabeleceram uma Idade de Ouro (Golden Age) filosófica e comercial. Os polímatas muçulmanos fizeram contribuições acadêmicas inovadoras para a matemática, ótica e a medicina. Foram os muçulmanos que ensinaram aos europeus ocidentais certos instrumentos financeiros e como produzir papel.

A explicação baseada no colonialismo ocidental também é problemática. A estagnação do mundo científico muçulmano ja tinha começado muito antes do início da colonização ocidental generalizada no século XVIII. Além disso, vários países pós-coloniais não muçulmanos na Ásia e na América Latina alcançaram o desenvolvimento ou a democratização, indicando que o progresso é possível apesar de um passado colonial.

Ao invés disso, a principal razão para os problemas de autoritarismo e subdesenvolvimento na maioria das sociedades muçulmanas tem sido o que eu chamo no meu livro de 2019 “a Aliança Ulemá”.

Entre os séculos VIII e XI – quando Muçulmanos pertenciam a várias escolas teológicas e estavam cooperando com Cristãos, Judeus e outros para estabelecer a idade de ouro – havia um certo grau de separação entre os ulemás e o Estado. A esmagadora maioria dos ulemás trabalhava no mercado privado na área do comércio. Essa realidade histórica refuta o moderno clichê de que o Islã inerentemente rejeita a separação entre religião e Estado.

Em meados do século XI, no entanto, a aliança ulemá-Estado começou a surgir. Essa aliança gradualmente marginalizou pensadores independentes e empreendedores econômicos, gerando anos de estagnação intelectual e econômica no mundo muçulmano.

Durante o século XIX, líderes reformistas enfraqueceram sua aliança com os ulemás, e no início do século XX quase todos os Estados Muçulmanos se declararam seculares.

Apesar disso, esses reformistas e estadistas seculares tinham um problema em comum: eram muito Estatocêntricos. Ao invés de encorajar a emergência de classes econômicas e intelectuais dinâmicas, eles expandiram a presença militar e de burocratas civis ao invés de priorizar política e economia.

As falhas na política dos governos seculares ajudaram na ascensão de ulemás e islamitas desde o início dos anos 1970. Por meio século, muitos países muçulmanos, incluindo Irã, Paquistão, Egito e Turquia, experimentaram a Islamização como um projeto social, político e legislativo. Isso também reviveu as alianças ulemá-Estado. Além disso, após a crise do petróleo em 1973, muitos países, principalmente na região do Golfo, começaram a usar os lucros do uso do óleo para financiar a aliança do Estado-ulemá domesticamente e promover agendas Islâmicas no exterior.

Alianças ulemá-Estado modernas aprovaram leis sobre blasfêmia e apostasia que penalizavam a expressão de opiniões religiosas e políticas divergentes. As políticas econômicas destas alianças são também restritivas e ineficientes onde, por exemplo, a apreensão da propriedade privada é uma forma de os Estados controlarem a economia e punirem a oposição.

Dado esse duradouro desafio estrutural, o que pode ser feito para remodelar o futuro?

Em um recente estudo publicado, o Dr. Kuru argumenta que desmantelar as alianças entre ulemás e o Estado, e reestruturar as economias é crucial para que os países Muçulmanos alcancem democracia e desenvolvimento.

A nível discursivo, ao invés de somente culpar o Islã ou o colonialismo ocidental, sociedades Muçulmanas deveriam questionar o anti-intelectualismo centenário e o controle estatal sobre a economia. Só através da auto-reflexão crítica as sociedades muçulmanas poderão verdadeiramente resolver os seus problemas políticos e socioeconômicos. Nao e o Alcorão que diz: “Deus não muda a condição de um povo a menos que ele mude o seu interior” (13:11) ?

A nível institucional, as sociedades muçulmanas necessitam de sistemas abertos, meritocráticos e competitivos onde as classes políticas, religiosas, intelectuais e econômicas possam operar de forma autônoma. Tal reforma exige a institucionalização da separação entre religião e Estado. O Islã não se opõe inerentemente a isso. Houve um certo nível de separação entre autoridades religiosas e políticas no início da história islâmica.

Essa reforma também deve incluir a expansão da liberdade de pensamento, através da abolição das leis sobre apostasia e blasfêmia, e uma proteção mais ampla das propriedades privadas através da prevenção da sua apreensão pelo Estado.

Existe um forte incentivo econômico para uma reforma. Receitas petrolíferas, que financiaram alianças entre ulemás e Estado, estão ficando mais escassas com os esgotamentos das reservas de petróleo e a adoção de tecnologias energéticas alternativas. Muitos países muçulmanos necessitarão de transformação econômica e inovação para prosperarem na era pós-petróleo.

Uma reinterpretação da história é importante para facilitar a reforma. As barreiras estruturais que impediram o progresso no mundo muçulmano, particularmente a aliança ulemá-Estado, tem profundas raízes históricas. No entanto, a história islâmica também inclui experiências paradigmáticas que podem inspirar futuras reformas nas relações Estado-religião e na economia.


Referências:

KURU, Ahmet T.. Dismantling the “ulema-state” is crucial for the future of Muslim-majority countries. 2021. Disponível em: https://www.newarab.com/opinion/dismantling-ulema-state-crucial-muslim-states. Acesso em: 08 jan. 2024.

KURU, Ahmet T.. The Ulema-State Alliance: A Barrier to Democracy and Development in the Muslim World. 2021. Disponível em: https://www.institute.global/insights/geopolitics-and-security/ulema-state-alliance-barrier-democracy-and-development-muslim-world. Acesso em: 08 jan. 2023.


Ahmet T. Kuru é Professor de Ciência Política na San Diego State University e autor de Isla, Autoritarismo, e Subdesenvolvimento: Uma comparação Global e Histórica. Seu relatório recente é intitulado “A Aliança Ulemá-Estado: Uma Barreira à Democracia e ao Desenvolvimento no Mundo Muçulmano”.

Jessica Dayane Rogalsky Tissen é Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora na área de Relações Internacionais e Religião, especificamente nos temas referentes a evangélicos na politica e o fenômeno das igrejas neopentecostais e seu movimento transnacional.

Deixe um comentário