A religião pode ser compreendida como um sistema de crenças, valores e práticas que organiza a relação dos sujeitos com aquilo que é reconhecido como sagrado ou espiritualmente relevante. Ainda que a modernidade política ocidental, especialmente a partir da Paz de Westfália, tenha consolidado o ideal de uma separação entre religião e política, relegando a primeira ao domínio do privado, tal processo jamais se realizou de forma plena. O que houve, em larga medida, foi a construção de uma narrativa secularizante que procurou obscurecer a permanência da religião como força constitutiva do político. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, essa presença tornou-se ainda mais incontornável no campo das Relações Internacionais, recolocando a religião no centro de debates sobre identidade, conflito, segurança e interesse nacional.
Nesse contexto, torna-se insuficiente compreender a política externa dos Estados apenas a partir de variáveis materiais, estratégicas ou econômicas. Ainda que tais elementos sejam relevantes, eles não esgotam o processo por meio do qual os Estados definem suas prioridades, percebem ameaças e constroem seus alinhamentos. Países formalmente seculares, como Índia e Estados Unidos, assim como Estados cuja identidade nacional guarda relação mais explícita com determinadas tradições religiosas, como Irã, Israel e Arábia Saudita, revelam que a religião continua operando como dimensão decisiva da vida internacional. Não se trata apenas da presença institucional de grupos religiosos na arena pública, mas da incorporação de valores, visões de mundo e sensibilidades morais que atravessam a própria formulação do interesse nacional.

É precisamente nesse ponto que o construtivismo oferece uma contribuição teórica decisiva. Ao romper com a noção de que os interesses dos Estados são dados prévios, naturais ou autoevidentes, a abordagem construtivista chama atenção para o fato de que eles são produzidos no interior de estruturas sociais e intersubjetivas. Autores como Nicholas Onuf e Alexander Wendt mostraram que identidades, normas, valores e ideias compartilhadas não orbitam a política internacional como elementos periféricos, mas participam diretamente da sua constituição. Se os atores interpretam o mundo a partir de horizontes simbólicos específicos, então a religião não pode ser pensada como resíduo irracional de um passado pré-moderno, mas como uma das linguagens mais persistentes de produção de sentido no campo político.
Sob essa perspectiva, a religião participa da formação dos interesses nacionais em pelo menos dois níveis fundamentais. O primeiro diz respeito à constituição da identidade nacional. Nenhuma identidade coletiva se forma apenas sobre bases jurídicas ou territoriais. Ela é também produto de experiências históricas, tradições culturais, memórias compartilhadas, narrativas de pertencimento e distinções simbólicas. Nesse quadro, a religião aparece como elemento importante da cultura, entendida aqui em sentido amplo, isto é, como conjunto de crenças, valores, práticas, normas, linguagens e formas de organização social que conferem inteligibilidade ao mundo vivido. O segundo nível refere-se à própria definição do interesse nacional. Se a identidade molda a maneira como uma coletividade percebe a si mesma, também condiciona a forma como percebe o outro, o inimigo, o aliado, o próximo e o distante. Em consequência, os interesses do Estado deixam de ser apenas resposta a estímulos materiais e passam a refletir também compromissos simbólicos, sensibilidades históricas e valores socialmente legitimados.
Desse modo, crenças e práticas religiosas podem se converter em valores coletivos de grande densidade política. Quando esses valores se articulam de maneira profunda à identidade estatal, passam a orientar prioridades, justificar ações e delimitar aquilo que será entendido como interesse legítimo. Em tais circunstâncias, não surpreende que Estados vinculados, explícita ou implicitamente, a determinada tradição religiosa priorizem a defesa de lugares sagrados, a proteção de comunidades correligionárias ou a promoção internacional de agendas percebidas como moralmente coerentes com sua identidade histórica.
A Indonésia oferece um exemplo eloquente dessa dinâmica. Embora não se apresente oficialmente como um Estado islâmico, o Islã, religião majoritária do país, exerceu papel relevante na própria formação da República e continua a influenciar o imaginário político nacional. Em larga medida, a percepção, difundida em setores significativos da sociedade, de que a identidade indonésia possui raízes islâmicas ajuda a compreender o crescente peso dessa dimensão na política externa do país. Ainda que autoridades governamentais frequentemente neguem uma vinculação direta entre Islã e atuação internacional, os movimentos recentes sugerem outra direção. Sobretudo a partir das pressões internas intensificadas após os protestos massivos de 4 de novembro de 2016, o Estado indonésio passou a demonstrar maior disposição em se engajar em pautas associadas ao universo islâmico global, como as questões palestina, Rohingya e Uyghur. O caso indica que a religião não atua apenas como identidade difusa da sociedade, mas como gramática moral que informa prioridades internacionais.

A Índia, por sua vez, expressa de forma ainda mais nítida o peso da religião na reconfiguração dos interesses nacionais. Embora constitucionalmente secular, o país assistiu, nas últimas décadas, ao fortalecimento do nacionalismo hindu, especialmente sob a liderança de Narendra Modi e do Bharatiya Janata Party. Durante boa parte do período posterior à independência, em 1947, a política externa indiana não era marcada de forma explícita por referências religiosas. Esse quadro, contudo, foi sendo alterado à medida que o Hindutva deixou de ser apenas uma corrente ideológica interna e passou a operar como horizonte identitário mais amplo. A ascensão desse projeto contribuiu para redefinir aliados, adversários e prioridades, reforçando aproximações estratégicas com Estados como Israel e Estados Unidos e intensificando posturas marcadas por suspeição em relação ao Islã, por sentimentos antiárabes e por tentativas de isolar o Paquistão no cenário internacional.
O que esses casos evidenciam é que a secularização formal dos Estados não elimina o peso da religião na vida internacional. Em muitos contextos, a religião permanece como uma das principais mediações por meio das quais comunidades políticas compreendem a si mesmas, narram sua trajetória histórica e projetam seu lugar no mundo. Nesse sentido, o interesse nacional não pode ser reduzido a cálculo instrumental, porque ele é também expressão de identidades, imaginários e estruturas de sentido. A religião, longe de ocupar uma posição marginal, participa desse processo de forma ativa, especialmente em sociedades nas quais valores religiosos se encontram profundamente entrelaçados à memória histórica, à cultura política e à autopercepção nacional. Essa chave de leitura é convergente com a maneira como seus textos situam a religião não como elemento externo ao conflito ou à política, mas como dimensão que atravessa o tecido social, os processos de subjetivação e a construção dos horizontes coletivos de ação
Por Fábio Nobre (UEPB)
Professor do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais e da graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisa o campo da Religião e Relações Internacionais, com foco especial para a relação entre violência e religião. Doutor (2016) em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Diretor do CEPRIR e coordenador do Grupo de Pesquisa de mesmo nome (gCEPRIR – CNPq/UEPB).
Recomenda-se a leitura de
DAMAYANTI, Rizki; AL HASAN, Khalid Ibrahim. The Role of Islam in the Indonesian Foreign Policy in the Era of Joko Widodo’s Government (2014–2024): between the Islamic Identity and the National Interests. Jurnal Indo-Islamika, v. 14, n. 1, p. 1-15, 2024. DOI: 10.15408/jii.v14i1.38314.
FOX, Jonathan; SANDLER, Shmuel. Bringing Religion into International Relations. New York: Palgrave Macmillan, 2004.
HAYNES, Jeffrey. An Introduction to International Relations and Religion. Harlow: Pearson/Longman, 2007.
HURD, Elizabeth Shakman. The Politics of Secularism in International Relations. Princeton: Princeton University Press, 2008.
MURPHY, Ann Marie. Islam in Indonesian Foreign Policy: The Limits of Muslim Solidarity for the Rohingya and Uighurs. Issue Brief, p. 1-15, 2020.
ONUF, Nicholas Greenwood. World of Our Making: Rules and Rule in Social Theory and International Relations. Columbia: University of South Carolina Press, 1989.
SCHÄFER, Saskia. Understanding Piety and Anger in Indonesia’s 2016 Islamic Mass Rallies. American Ethnological Society, 9 nov. 2017. Disponível em: American Ethnological Society.
SIYECH, Mohammed Sinan. Hindutva, Indian Foreign Policy, and the Israel-Palestine Conflict. Berkley Forum, Berkley Center for Religion, Peace, and World Affairs, Georgetown University, 25 nov. 2024.
THOMAS, Scott M. The Global Resurgence of Religion and the Transformation of International Relations. New York: Palgrave Macmillan, 2005.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
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