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Separação entre igrejas ucraniana e russa mostra importância política do cristianismo ortodoxo

A recente decisão da Igreja Ortodoxa Ucraniana de se separar de sua contraparte russa depois de mais de 300 anos de ligação reflete não apenas o contínuo conflito militar entre os dois países nos últimos anos, mas também o importante papel político que o cristianismo ortodoxo desempenha na região.

A Ucrânia é uma nação cristã predominantemente ortodoxa, com quase oito em dez adultos (78%) se identificando como ortodoxos (em comparação com 71% na Rússia), de acordo com uma pesquisa feita em grande parte do país (algumas áreas contestadas em Ucrânia Oriental não foram pesquisadas) (MASCI, 2015). Isso é cerca de 39% dos que disseram ser cristãos ortodoxos em 1991 – o ano em que a União Soviética, oficialmente ateia, entrou em colapso e a Ucrânia conquistou sua independência. Com cerca de 35 milhões de cristãos ortodoxos, a Ucrânia tem agora a terceira maior população ortodoxa do mundo, depois da Rússia e da Etiópia.

Strong majorities in Ukraine and Russia identify as Orthodox

Além disso, o cristianismo ortodoxo está intimamente ligado à vida nacional e política da Ucrânia. Cerca de metade de todos os ucranianos (51%) dizem que é pelo menos um pouco importante para alguém ser ortodoxo para ser verdadeiramente ucraniano. O mesmo é verdadeiro para a Rússia, onde 57% dizem que ser ortodoxo é importante para ser verdadeiramente russo. Em ambos os países, cerca da metade (48% em cada) diz que os líderes religiosos têm pelo menos alguma influência em questões políticas, embora a maioria dos ucranianos (61%) e cerca de metade dos russos (52%) preferiria se não fosse assim.

A divisão entre as igrejas ortodoxas nos dois países é parte de uma história mais ampla de tensões políticas entre as ambições geopolíticas da Rússia na região e a resistência da Ucrânia a elas – mesmo que outros países predominantemente ortodoxos na Europa Oriental olhem para a Rússia como liderança política e religiosa. Por exemplo, maiorias de cristãos ortodoxos em países como Sérvia (77%) e Geórgia (62%) dizem que a Rússia tem a obrigação de proteger cristãos ortodoxos fora de suas fronteiras, mas poucos ucranianos ortodoxos (41%) se sentem assim.

De fato, embora a pesquisa tenha sido conduzida em 2015 – enquanto a Igreja Ortodoxa Ucraniana ainda estava sob a jurisdição da Igreja Ortodoxa Russa – uma pluralidade de ucranianos ortodoxos (46%) disseram que enxergavam os líderes da igreja nacional ucraniana (ou o patriarca de Kiev ou a metrópole de Kiev e toda a Ucrânia) como a mais alta autoridade da Ortodoxia. Apenas 17% viam o patriarca de Moscou (atualmente Kirill I) como seu líder espiritual, e uma parcela ainda menor (7%) disse que eles olhavam para o patriarca ecumênico de Constantinopla (atualmente Bartolomeu I) como líder, embora ele seja tecnicamente o líder principal dos cerca de 300 milhões de cristãos ortodoxos do mundo.

In Ukraine, more support for national patriarch than patriarch of Moscow

Mas as atitudes na Ucrânia em relação à liderança política e religiosa da Rússia também estão altamente divididas entre as partes leste e oeste do país. Os ucranianos orientais têm atitudes mais positivas em relação à Rússia do que os ucranianos ocidentais. Por exemplo, a pesquisa de 2015 descobriu que mais da metade das pessoas que vivem no leste (55%) dizem que a Rússia tem a obrigação de proteger os cristãos ortodoxos que vivem fora de suas fronteiras. No oeste da Ucrânia, entretanto, a maioria (58%) discorda dessa visão. O patriarca de Moscou também recebe maior apoio no leste da Ucrânia do que no oeste da Ucrânia. Ucranianos ocidentais são mais propensos a olhar para os seus próprios patriarcas nacionais como a mais alta autoridade da Igreja Ortodoxa.

Devido ao combate no leste da Ucrânia entre forças pró-russas e o governo ucraniano, a pesquisa de 2015 usada nesta análise cobriu apenas 80% da população do país e excluiu a província mais ao sul da Crimeia (que a Rússia anexou em 2014), bem como as províncias orientais de Donetsk e Luhansk. Dadas as tensões geopolíticas ainda em curso entre os dois países, as atitudes ucranianas ocidentais em relação à Rússia provavelmente não melhoraram desde 2015, muito menos depois da cisão.


Por Fábio Nobre (UEPB).
Recomenda-se a leitura de: KORNIICHUK, Iuliia. The Impact of the Russian-Ukrainian Military Conflict on Religious Life in Ukraine. Białostocki Teki Historyczne. v. 14, 2016, pp. 245-261; ELSNER, Regina. Orthodox Church of Ukraine: Challenges and Risks of a New Beginning. Russian Analytical Digest, n.231, 2019, pp. 09-13. Este texto não deve ser reproduzido sem permissão.

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