
Por Alessandra França, Bruna Pedrola e Maria Luiza Verde (UEPB/CEPRIR)
Existe uma linha tênue entre o sagrado e o sangrento, considerando as inúmeras situações ao longo da história mundial em que esses termos estiveram diretamente entrelaçados. Sem dúvida, a religião cristã esteve associada a conflitos intensos desde a Idade Média, marcada pela dominação da Igreja — uma influência que, podemos destacar, estendeu-se até a Idade Moderna. Essa dominação foi impulsionada por um fantasma que, até hoje, assombra ruas e casas de muitos religiosos: o medo.Após séculos de perseguições em toda a Europa, a América do Norte se tornou palco de um dos episódios mais conhecidos quando o assunto é fanatismo religioso: o julgamento das bruxas de Salém. Esse episódio reflete uma sociedade religiosa, opressora e fanática, disposta a derramar o sangue de mulheres em nome da fé.
Localizada nos Estados Unidos, a cidade de Salém fazia parte da baía de Massachusetts e foi fundada por um grupo de puritanos que acreditava estar cumprindo a vontade de Deus, criando um novo Éden na Terra. Dividida em dois polos — o centro e a periferia —, a cidade refletia uma realidade marcada pela desigualdade social, o que gerava diversos conflitos internos entre fazendeiros e trabalhadores. Inclusive, foi construída uma igreja central destinada apenas aos mais ricos. Sob o domínio rigoroso da Igreja, Salém foi palco da perseguição às chamadas bruxas — uma continuidade da caça às bruxas que assolou a Europa por mais de quatro séculos. As primeiras acusações de “bruxaria” ocorreram em 1692, quando crianças apresentaram supostos sinais de possessão demoníaca e de estarem enfeitiçadas. Quando mais oito jovens começaram a manifestar os mesmos sintomas, iniciou-se um processo de histeria coletiva, que resultou na acusação de dezenas de pessoas, incluindo políticos e figuras influentes da época.
A partir desse contexto, pessoas passaram a ser acusadas de praticar bruxaria sem qualquer motivo concreto. Bastava uma desavença, um sonho considerado estranho ou até uma marca no corpo para que alguém fosse denunciado por supostamente prestar culto ao diabo (Bastos e Costa, 2024). Como resultado, mais de 200 pessoas foram acusadas e executadas, de diferentes maneiras, sob o respaldo e comando da instituição religiosa dominante: a Igreja Puritana. Espalhava-se a ideia de que qualquer forma de heresia, ou seja, qualquer comportamento ou pensamento que se distanciasse dos ensinamentos da Igreja, seria suficiente para condenar uma pessoa ao inferno, negando-lhe a salvação divina (Silva; Araújo, 2017). Diante dessa crença, a Igreja via como seu dever “purificar” a cidade, eliminando aquilo que consideravam o mal.
Durante o período dos julgamentos, homens e mulheres estavam expostos ao perigo da acusação, visto que os julgamentos não eram norteados por nenhum tipo de parâmetro pré estabelecido e baseavam-se no peso que o juiz escolhia atribuir às acusações, entretanto, parte majoritária das acusações e execuções tiveram como alvo mulheres (Bastos e Costa, 2024).

A culpa atribuída ao que teria sido o início da “disseminação da bruxaria” foi atribuída a Tituba, um mulher negra que trabalhava como empregada na casa onde viviam as primeiras crianças “infectadas” após serem introduzidas a práticas de adivinhação do futuro (Bastos e Costa, 2024) . Nunca existiram provas concretas de que Tituba teria tido algum tipo de relação com qualquer prática religiosa, entretanto, sua raça e seu status social foram suficientes para garantir sua sentença, resultando em sua prisão e tortura. Por fim, Tibuta conseguiu convencer o jugo de sua inocência e foi poupada de uma execução oficial, porém não existem registros posteriores da sua vida que possam afirmar sobre seu real paradeiro e integridade (Bastos e Costa, 2024) .
Infelizmente, a visão pejorativa do feminino reforçada por narrativas bíblicas como a criação da mulher a partir de um fragmento do homem e o primeiro pecado cometido por Eva eram manipuladas como forma de solidificar mulheres como seres impuros e enganosos. De maneira isolada, esse discurso já era responsável pela manutenção da insegurança e subordinação inerentes à condição de ser mulher, entretanto, quando aliado ao medo causado pelo desconhecido resulta em uma poderosa arma contra a existência feminina (Bastos e Costa, 2024) . Visto que as acusações não seguiam nenhum parâmetro, naquele momento todas as mulheres da comunidade se encontravam expostas a um cenário hostil. Independente da acusação formal de bruxaria, toda população feminina de Salém experimenta, em diferentes níveis, um cenário de profunda insegurança física e invisibilização. Centenas foram condenadas e torturadas, algumas tendo suas vidas tristemente ceifadas, outras tendo que enfrentar o preconceito e a hostilidade após serem liberadas (Bastos e Costa, 2024) .
No fim, a grande sentença daquelas mulheres havia sido a elas atribuídas durante seu nascimento e a intensificação da disparidade de poder permitiu que figuras marginalizadas fossem julgadas como seres de poder supra-humanos. Apesar da distância temporal que separa Salém da sociedade contemporânea, a permanência no subconsciente coletivo da bruxa como uma figura de poderes malignos, feia e incapaz de dar ou receber afeto segue sutilmente reforçando a aversão à figura feminina.

Sob esse viés, entende-se que o fanatismo religioso, como demonstrado nos episódios em Salém, revela sua face mais cruel quando se desvincula de qualquer senso de justiça, razão ou compaixão. A fé, que poderia servir como fonte de acolhimento e libertação, é distorcida e usada como ferramenta de opressão e controle. Ao ser manipulada por líderes autoritários ou por comunidades amedrontadas, ela deixa de ser uma prática espiritual e torna-se uma justificativa para atrocidades — onde não há espaço para dúvidas, divergências ou humanidade. Nesse sentido, em Salém, a doutrina puritana foi transformada em tribunal e sua Bíblia, em sentença de morte. Desse modo, a justiça foi substituída por um espetáculo macabro de sofrimento e culpa. A fé se converteu, então, não em salvação, mas em sentença.
Salém é um alerta histórico: uma comunidade que, sob o domínio do fanatismo, destruiu seus próprios membros em nome de uma fé mal compreendida. O nome da cidade se tornou símbolo de intolerância religiosa, de perseguições injustas e da maneira como o poder, quando aliado ao medo, pode se alimentar da fragilidade dos mais vulneráveis. É um exemplo claro de que nem toda crença leva à luz — quando usada como arma, a fé pode obscurecer a razão e legitimar violências irreparáveis.
Diante disso, cabe uma reflexão necessária: quantas vezes, mesmo hoje, a fé ainda é usada como justificativa para excluir, punir ou silenciar? Em pleno século XXI, ainda enfrentamos discursos que criminalizam a diferença, que marginalizam religiões minoritárias e que alimentam o preconceito de gênero, raça e sexualidade em nome de uma suposta moral divina. Precisamos, mais do que nunca, reconhecer os sinais do fanatismo, combatê-los com diálogo, educação e empatia, e lembrar que o verdadeiro valor da fé está em aproximar as pessoas — e não em destruí-las. Salém não é apenas uma memória: é um espelho. E cabe a nós escolher não repetir sua tragédia.
Alessandra Lima da França (CEPRIR)
Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB).Fundadora do Projeto Conecta Jovem, iniciativa voltada à democratização de informações e ao fortalecimento do impacto social entre jovens.
Bruna Souza Pedrola (UEPB/CEPRIR)
Graduanda de Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC UEPB), realizando pesquisa sobre Budismo e Direitos Reprodutivos.
Maria Luiza Lima Verde
Graduanda de Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Bolsista do Programa de Bolsas de Extensão (PROBEX UEPB), com o projeto OIKOS: Tolerância Religiosa Como Instrumento de Construção da Paz.
Recomenda-se a leitura de:
BASTOS, D. R. B., & COSTAS, I. M. (2024). As bruxas de Salém na perspectiva religiosa de Salém no Século XVII. Caderno Acadêmico Unina De Tecnologia, Sociedade E Negócios, 1(2). https://doi.org/10.51399/cau-tsn.v1i2.59
SILVA, Bruna Batista; ARAÚJO, Sandra Rodart. Fanatismo religioso: surto de Salém. In: SEMINÁRIO DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO, ENSINO E EXTENSÃO DO CCSEH – III SEPE, 3., 2017, Anápolis. Anais […]. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás – Campus Anápolis de Ciências Socioeconômicas e Humanas, 2017. p. 1–5. Disponível em: http://www.sepe.ccseh.ueg.br.
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