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A fé como arma simbólica na Hungria de Orbán

Por Areli Nunes & Fábio Nobre (UEPB)

Neste domingo, 12 de abril de 2026, Viktor Orbán foi derrotado nas urnas, encerrando um ciclo de 16 anos à frente do governo húngaro. A vitória de Péter Magyar não apaga, contudo, a força política do modelo orbanista; ao contrário, oferece um momento privilegiado para examinar com mais clareza a gramática ideológica que sustentou esse projeto. Orbán governou com maiorias eleitorais, reformas institucionais, conflitos calculados com Bruxelas e uma narrativa moral persistente. No centro dessa narrativa, o cristianismo ocupou um lugar decisivo.

Reduzir essa mobilização da religião a uma expressão espontânea de fé seria, no entanto, um erro analítico. Ao longo de sua trajetória política, Orbán se apresentou como defensor de valores cristãos e converteu o cristianismo em linguagem de soberania, critério de pertencimento nacional e instrumento de legitimação de um projeto iliberal. O que estava em jogo não era simplesmente a preservação de uma tradição religiosa, e sim a transformação do sagrado em recurso de poder.

É precisamente aqui que o caso húngaro ganha relevância mais ampla. A instrumentalização do cristianismo por Orbán não deve ser lida como um detalhe folclórico da política do Leste Europeu, nem como resíduo de uma sociedade “mais tradicional”. Trata-se, antes, de uma operação política sofisticada, em que a religião é deslocada da esfera da devoção privada para a arena da disputa nacional e civilizacional. O cristianismo funciona, nesse arranjo, como fronteira simbólica. Ele organiza pertencimentos, delimita ameaças e distribui legitimidade no interior da comunidade política.

A sistematização dos discursos de Orbán permite perceber que sua retórica religiosa nunca operou como simples profissão de fé. Ela funcionou como apelo direto às emoções, à memória histórica e à identidade coletiva do povo húngaro. Ao apresentar o cristianismo como fundamento moral da Hungria, Orbán ofereceu às suas decisões políticas uma moldura ética que as tornava mais inteligíveis e, sobretudo, mais legítimas aos olhos de seus apoiadores. O fechamento de fronteiras, a rejeição à imigração, a defesa da família tradicional e a crítica às instituições supranacionais eram ressignificados como atos de proteção. No interior desse vocabulário, decisões de governo ganhavam a aparência de dever histórico.

Esse ponto é central. A força do discurso orbanista residiu em humanizar e moralizar seu projeto político. Em vez de se apresentar apenas como gestor de interesses nacionais, Orbán construiu a imagem de um guardião. Seu governo foi recoberto por uma retórica de missão: proteger o Estado húngaro, preservar as raízes cristãs da Europa, impedir a dissolução cultural provocada pelo cosmopolitismo liberal. Nesse enquadramento, a política assume um tom salvífico. A discordância pública deixa de ser percebida apenas no plano programático e passa a ser interpretada, com frequência, como sintoma de erosão moral e desalinhamento com o destino da nação.

Como dito em nossa Constituição, sem o Cristianismo, a Hungria não existiria (Orbán, 2025)

O cristianismo, em Orbán, não aparece prioritariamente como doutrina teológica. Surge, antes, como signo civilizacional. Sua utilidade política decorre do fato de condensar história, afetos, fronteiras e pertencimento num único vocabulário. Ao mobilizar essa linguagem, Orbán reconstrói a identidade nacional húngara como corpo moral homogêneo, supostamente moldado por uma herança cristã ameaçada por forças externas.

Essas forças externas são nomeadas de várias formas ao longo de sua trajetória: migrantes, burocracias europeias, elites liberais, cosmopolitismo, multiculturalismo, globalismo. O ponto decisivo, porém, é que todas elas são reunidas sob uma mesma lógica de ameaça. O cristianismo torna-se, então, o operador simbólico que organiza essa oposição entre “nós” e “eles”. A referência às raízes cristãs da Hungria vai muito além de uma observação histórica banal. Ela fornece um critério normativo para a soberania e uma justificativa simbólica para práticas de exclusão.

Os húngaros nos deram um mandato: deter a imigração, defender a Europa das nações e defender a cultura cristã na Europa. (Orban, 2019)

É nesse momento que a análise de Orbán precisa ser situada no campo mais amplo do populismo de direita radical. A literatura especializada, especialmente a de Cas Mudde, define esse campo a partir da convergência entre nativismo, autoritarismo e populismo (Mudde, 2007). O nativismo sustenta que o Estado deve ser habitado e governado em função do grupo nativo; o autoritarismo privilegia ordem, disciplina e homogeneidade social; e o populismo, entendido como ideologia de núcleo fino, divide a sociedade entre o povo puro e a elite corrupta (Mudde; Kaltwasser, 2017). No caso húngaro, esses três elementos coexistem e se articulam por meio da linguagem religiosa.

O nativismo manifesta-se, talvez, da forma mais clara, justamente na associação entre nação e cristianismo. Orbán não descreve o cristianismo apenas como parte da história da Hungria, mas como essência da comunidade política. A identidade nacional é apresentada como algo culturalmente enraizado e religiosamente marcado. Nessa operação, a imigração recebe tratamento de ameaça civilizacional, e o multiculturalismo é descrito como vetor de dissolução identitária. O cristianismo cumpre, aqui, a função de naturalizar a ideia de continuidade homogênea da nação, em linha com a definição de nativismo proposta por Mudde (2007).

Precisamos de líderes que representem os interesses do povo da Europa, líderes que que respeitam as nações europeias e líderes que são orgulhosos dos nossos dois mil anos de cultura cristã. (Orbán, 2019)

O autoritarismo, por sua vez, aparece menos como rejeição frontal das eleições e mais como desconfiança sistemática diante do pluralismo. O governo de Orbán preservou o ritual democrático e trabalhou para esvaziar seus limites liberais. É esse o ponto que o aproxima da fórmula da “democracia iliberal”, que ele próprio ajudou a consagrar. A maioria eleitoral recebe um valor quase absoluto, enquanto instituições de contenção, garantias de minorias e mediações pluralistas são retratadas como entraves artificiais à vontade nacional. Nesse terreno, a religião oferece um reforço decisivo, porque reveste a maioria com um sentido de missão histórica e facilita o enquadramento da oposição como obstáculo à continuidade moral da comunidade. Essa lógica dialoga com a leitura de Jan-Werner Müller sobre o caráter antipluralista do populismo (Müller, 2016).

Já o populismo se revela na contraposição recorrente entre o verdadeiro povo húngaro e elites tidas como corruptas, cosmopolitas ou alienadas de sua própria civilização. Orbán construiu, ao longo dos anos, uma narrativa em que as instituições europeias e as elites liberais aparecem como forças externas ou desnacionalizadas, incapazes de compreender a singularidade histórica da Hungria. O povo, em contraste, é descrito como portador autêntico da soberania. Essa oposição possui evidente dimensão moral. É precisamente nesse ponto que o cristianismo oferece densidade simbólica ao populismo, porque sacraliza o povo e recobre a elite com a marca da desordem civilizacional. Aqui, o caso húngaro confirma a formulação segundo a qual o populismo opera como ideologia de núcleo fino e depende de associações com ideologias mais densas para adquirir conteúdo programático (Mudde, 2007; Mudde; Kaltwasser, 2017).

Essa combinação confirma, com notável coerência, a definição de direita radical populista proposta por Mudde (2007). O populismo, sozinho, não basta. Por ser uma ideologia de núcleo fino, ele depende de ideologias hospedeiras que lhe confiram conteúdo. No caso de Orbán, esse conteúdo é fornecido pelo nativismo, reforçado por uma disposição autoritária e recoberto por uma linguagem cristã de proteção, continuidade e destino. O antagonismo incorpora, então, um terceiro polo: o outro. O migrante, a minoria, o burocrata europeu, o liberal cosmopolita — todos podem ser apresentados como beneficiários da ação das elites e como ameaça ao corpo moral da nação. Essa configuração se ajusta ao que Mudde descreve como integração entre nativismo, autoritarismo e populismo, e também ao diagnóstico de Müller, segundo o qual o populismo tende a reivindicar para si a representação exclusiva do “verdadeiro povo” (Mudde, 2007; Müller, 2016).

Quando elevamos a ação contra a perseguição aos cristãos ao nível de política de Estado, quem poderia imaginar que, poucos anos depois, tantos de nós estaríamos aqui em Budapeste? (Orbán, 2017)

É por isso que a instrumentalização do cristianismo não deve ser compreendida como ornamento retórico. Ela é constitutiva do projeto. Ao deslocar a fé da esfera privada para o centro da soberania, Orbán ressignificou o cristianismo como linguagem de combate político. O sagrado foi convocado para blindar institucionalmente e moralmente o projeto iliberal, transformando disputas ordinárias de governo em confrontos existenciais sobre sobrevivência nacional. Forma-se, assim, uma sacralização da política que enfraquece o diálogo democrático, porque submete a divergência a um julgamento moral de pertencimento. Nesse sentido, o caso húngaro se aproxima do que DeHanas descreve como formas de “populismo sagrado”, em que símbolos religiosos são mobilizados para intensificar clivagens políticas e morais (DeHanas, 2018).

A derrota eleitoral de Orbán, portanto, não encerra automaticamente a potência dessa gramática. Seu legado político permanece como sintoma de uma transformação mais ampla da direita radical europeia: a de que a religião continua disponível como tecnologia de poder. Na Hungria, o cristianismo assumiu a função de fronteira simbólica, dispositivo de exclusão e linguagem de soberania.

Se há uma lição mais ampla a extrair do caso húngaro, ela talvez seja esta: o perigo não reside apenas na presença da religião na política, mas na sua captura por projetos que pretendem abolir a pluralidade em nome de uma comunidade moral homogênea. Orbán compreendeu isso com precisão. E foi justamente por compreender que conseguiu transformar a cruz, por tantos anos, em instrumento de governo.


Areli Fábian da Silva Nunes

Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisa o uso retórico da religião na política húngara.

Fábio Nobre (UEPB)

Professor do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais e da graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisa o campo da Religião e Relações Internacionais, com foco especial para a relação entre violência e religião. Doutor (2016) em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Diretor do CEPRIR e coordenador do Grupo de Pesquisa de mesmo nome (gCEPRIR – CNPq/UEPB).


Recomenda-se a leitura de

DEHANAS, Daniel Nilsson. The spirit of populism: sacred, charismatic, redemptive, and apocalyptic dimensions. Democratization, [S. l.], 2023. DOI: 10.1080/13510347.2023.2284277.

MUDDE, Cas. Populist radical right parties in Europe. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

MUDDE, Cas; KALTWASSER, Cristóbal Rovira. Populism: a very short introduction. Oxford: Oxford University Press, 2017.

MÜLLER, Jan-Werner. What is populism? London: Penguin, 2016.

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