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Neopentecostalismo e ultradireita: moral religiosa e disputa política no Brasil contemporâneo

Por Thalia Santos e Thiago Cavalcanti (UEPB/CEPRIR)

No contexto do cristianismo brasileiro, o neopentecostalismo é uma vertente que vem ganhando espaço e ampliando sua influência para além do campo religioso. No Brasil, esse movimento ganhou força sobretudo a partir do fim dos anos 1970, tendo na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada em 1977 por Edir Macedo e associados, uma de suas expressões mais influentes. Desde então, a vertente vem construindo um aparato político e social que hoje é capaz de, por exemplo, guiar discussões e pautas relevantes na sociedade civil até o Congresso Nacional. Esse processo se explica, entre outros fatores, pela conquista política orientada por novos dogmas dessa vertente, como o abandono do ascetismo e do sectarismo em prol da adoção da Teologia da Prosperidade e do Domínio (Nobre; Pini; Menezes, 2023).

A Teologia da Prosperidade e a Teologia do Domínio contribuíram para a expansão neopentecostal contribuíram para a expansão neopentecostal, ao lado de fatores como uso intensivo da mídia, organização institucional e atuação política. A Teologia da Prosperidade (TP) prega que a obtenção de lucro e riquezas materiais não deve ser vista como um problema moral, e sim como algo desejável, sendo o sucesso material e o dinheiro reconhecidos como reflexos da ação de Deus na vida do ser humano (Mendes 2010 apud Nobre; Pini; Menezes, 2023). Ela se mostrou estratégica para atrair novos fiéis, manter os já vinculados à igreja e estimular a arrecadação de dízimos e ofertas. Isso ocorre porque, nessa lógica, problemas financeiros e de saúde passam a ser interpretados como sinais de falta de devoção, enquanto a bênção (entendida como a resolução desses problemas) aparece associada a demonstrações de fé frequentemente vinculadas a doações financeiras à Igreja. (Menezes 2021, p. 7 apud Nobre; Pini; Menezes, 2023). Na leitura crítica desses autores, essa teologia tende a mercantilizar a bênção, apresentando-a como algo associado à doação financeira à Igreja. Quando a bênção não é alcançada, a responsabilidade recai sobre o próprio fiel, interpretado como alguém cuja fé seria insuficiente.

A Teologia do Domínio se constrói por meio do dualismo Deus x Diabo e da ideia de que há uma guerra espiritual na qual essas entidades guerreiam pelo domínio do mundo material (Nobre; Pini; Menezes, 2023). Pode-se entender que ela é utilizada para justificar que a Igreja deve interferir na política, pois esta é uma das áreas em disputa entre o “bem x mal” (Deus x Diabo). As áreas em disputa são aquelas que a Doutrina dos Sete Montes defende que devem ser conquistadas pelos cristãos (Pereira 2022 apud Nobre; Pini; Menezes, 2023). O neopentecostalismo, assim, rompe com setores do pentecostalismo clássico que historicamente valorizaram maior separação em relação à política institucional e maior afastamento de práticas consideradas “mundanas”, como o consumo de bebidas alcoólicas e determinados hábitos culturais (Nobre; Pini; Menezes, 2023). A vertente clássica pode ser considerada, então, a ala apolítica do pentecostalismo (Nobre; Pini; Menezes, 2023), enquanto o neopentecostalismo rompe com essa crença, passando a defender não apenas a inserção, mas também a dominação da política e das outras áreas como uma obrigação moral. Sendo assim, com esses novos elementos ideológicos, o neopentecostalismo conseguiu crescer de forma muito expressiva ao longo dos anos. Hoje, sua principal igreja, a Igreja Universal do Reino de Deus, possui uma ampla quantidade de fiéis. Em adição, seu fundador e principal liderança, Edir Macedo, tornou-se proprietário do Grupo Record e passou a exercer influência significativa no campo midiático, incluindo televisão e rádio.

Outro ponto de importância para ser analisado, e que se entrelaça com o neopentecostalismo, é a ultradireita, que pode ser definida como movimentos, ideologias e lideranças heterogêneas caracterizadas pela convergência em torno de temas como a defesa de uma relação social hierárquica entre grupos de uma sociedade, o ultranacionalismo, a xenofobia, o repúdio ao pluralismo sociocultural e um sentimento contrário às elites do establishment político (Minskenberg 2000; Greven 2016; Mudde 2018 apud Nobre; Pini; Menezes, 2023). Esses elementos dialogam com pautas defendidas por setores do neopentecostalismo contemporâneo, especialmente no campo moral e comportamental. Os dois movimentos também se utilizam da lógica de “dentro e fora”/“nós e eles”, que se relaciona ainda com a lógica do populismo, muito presente no país. É nesse ponto que existe uma convergência entre eles.

A ultradireita conservadora, como defensora da moral e da família, teria na família tradicional heteronormativa um “nós”, enquanto os progressistas seriam o “eles”, o grupo a ser combatido, que não seria representado por um governo ultradireitista. O neopentecostalismo possui o “nós” nos fiéis, aqueles que frequentam a igreja e acreditam na verdade única dita pelo pastor, em nome de Deus, enquanto o “eles” seriam os infiéis, aqueles que estão fora da igreja. Com a união desses dois movimentos, os grupos de “eles” acabam se misturando e se transformando em um único inimigo a ser combatido: os defensores do “marxismo cultural”, grupo interpretado como contrário aos valores tradicionais do Ocidente, estimulando a ideologia de gênero, o aborto, o ateísmo e a homossexualidade (Nobre; Pini; Menezes, 2023), pautas temidas, repudiadas e combatidas por ambos os grupos.

Nos últimos anos, a influência neopentecostal na política brasileira aumentou significativamente. Criada em 2003, a Frente Parlamentar Evangélica passou por registro/regularização formal na Câmara em 2015. Esse crescimento está diretamente associado à aproximação entre líderes religiosos e movimentos conservadores, uma vez que o neopentecostalismo também busca a manutenção de valores morais tradicionais e se posiciona, em diversos momentos, de forma contrária a pautas associadas ao pluralismo moral, aos direitos sexuais e reprodutivos e à agenda LGBTQIA+.

No entanto, essa relação não significa que a vertente neopentecostal e a ultradireita configurem um casamento obrigatório, e sim uma convergência entre seus princípios éticos e ideológicos. A aproximação entre o neopentecostalismo e a ultradireita provém, em parte, da influência da Teologia do Domínio (TD), especialmente pela construção de uma narrativa dualista entre o bem e o mal, segundo a qual se faz necessária a expansão da influência neopentecostal na esfera social, reforçando a defesa e manutenção dos valores tradicionais. Ademais, essa aliança ideológica contribui para que pautas relacionadas às minorias sociais, ao aborto e às relações homoafetivas sejam interpretadas por ambos os grupos como manifestações da degradação moral da sociedade contemporânea.

Ainda nesse sentido, sob a perspectiva neopentecostal, essa agenda progressista representa um afastamento dos princípios cristãos e da centralidade de Deus na sociedade. Paralelamente, a ultradireita a interpreta como uma desestruturação da ordem tradicional. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), essa convergência entre o neopentecostalismo e a ultradireita tornou-se ainda mais evidente, diante da valorização de pautas conservadoras associadas à religião e à defesa da família tradicional. Seu lema de campanha, “Deus, pátria e família”, simbolizou a aproximação entre princípios cristãos e o conservadorismo moral, de modo que lideranças evangélicas conservadoras, como Marco Feliciano, e lideranças neopentecostais, como Edir Macedo, reforçaram essa identificação ideológica e política entre ambos.

A ideologia de gênero também contribuiu para fortalecer a aproximação entre tais grupos, por meio da construção de uma narrativa política voltada à defesa dos princípios cristãos e conservadores. Logo, embora Bolsonaro não tenha originado essa visão conservadora neopentecostal, seu governo atuou como importante representante de demandas morais e religiosas já existentes. Por fim, o neopentecostalismo tem se consolidado como importante ator político e social, e sua aproximação com a ultradireita tem impactado diretamente o debate democrático brasileiro, evidenciando os desafios da relação entre política e religião, sobretudo no que diz respeito aos limites da influência religiosa em um Estado laico.


Por Thalia da Silva Santos (UEPB/CEPRIR)

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Interessada em temas de diplomacia, direitos humanos, religião e politica externa.

Por Thiago Pereira Cavalcanti (UEPB/CEPRIR)

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Interessado em temas de diplomacia, economia política internacional, religião nas relações internacionais e política externa.


Recomenda-se a leitura de:

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

PINI, André Mendes; NOBRE, Fábio; MENEZES, Maria E. A. de. O neopentecostalismo no Brasil e a convergência com a ultradireita no populismo reacionário de Jair Bolsonaro. Revista de Iniciação Científica em Relações Internacionais, v. 11, p. 1-16, 2023.

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