
Por Ryanne Araújo (UEPB)
Assim como outras dimensões da vida humana, as formas de expressão religiosa não permanecem estáticas. Ao contrário, são continuamente reconfiguradas em resposta às transformações históricas, culturais e econômicas. Ao longo do tempo, a fé e suas manifestações assumiram diferentes formatos. No cristianismo brasileiro, esse processo pode ser observado mais evidentemente no campo evangélico, em especial as reconfigurações sucessivas à chegada do pentecostalismo na América Latina, no início do século XX, até a emergência do neopentecostalismo nas últimas décadas. Nesse contexto, o neopentecostalismo se apresenta como uma expressão religiosa que dialoga diretamente com as demandas da sociedade contemporânea, flexibilizando tradições pentecostais anteriores e incorporando novos ritos, discursos e práticas religiosas (Mariano, 1999).
Para compreender as transformações do movimento pentecostal e a ascensão do neopentecostalismo, vale revisitar a classificação das três ondas do campo, proposta pioneiramente por Freston (1994) e posteriormente aprimorada por Mariano (1999), que analisa com mais profundidade as particularidades da terceira fase. No Brasil, a primeira onda, conhecida como pentecostalismo clássico, se inicia com a chegada das primeiras igrejas pentecostais, Congregação Cristã e Assembléia de Deus, respectivamente nos anos de 1910 e 1911, Inicialmente, o pentecostalismo cresce majoritariamente entre as camadas mais populares e indivíduos com baixa escolaridade, ambas caracterizadas pela postura sectária e ascética. No vocabulário sociológico, a definição de sectarismo remete mais propriamente à separação do mundo, à forte identidade interna e à demarcação rígida em relação a outros grupos religiosos (Weber, 1999).

A segunda onda do movimento, denominada deuteropentecostalismo, se inicia nos anos 1950 com o trabalho missionário de Harold Williams e Raymond Boatright, dois ex-atores estadunidenses, na cidade de São Paulo. Trazendo uma mensagem centrada na cura divina e uso intensivo do rádio, Williams e Boatright conseguiram ampliar a visibilidade do pentecostalismo no Brasil. Ao contrário da primeira fase, que foi marcada pelo isolamento institucional, esse período caracteriza-se pelo evangelismo de massas e foi responsável por atrair não só fiéis e pastores de outras vertentes evangélicas, como também muitos indivíduos em posição de vulnerabilidade social, em especial os migrantes nordestinos.
A terceira onda nasce no final dos anos 70 no Rio de Janeiro e cresce e se fortalece nos anos 80 e 90, carregando consigo uma postura mais flexível e integrada com a sociedade contemporânea. Com o protagonismo de igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça e a Sara Nossa Terra, o Neopentecostalismo rompe com a lógica do ascetismo clássico pentecostal, ampliando a abertura em relação aos costumes, à estética, à mídia e à participação política. De acordo com Mariano (1999), o neopentecostalismo é caracterizado por três elementos fundamentais: 1)- a intensificação da guerra espiritual contra forças demoníacas; 2) a ênfase na Teologia da Prosperidade e 3) a flexibilização das normas tradicionais de comportamento religioso. A esses pontos soma-se, conforme Ari Pedro Oro (1992), a crescente “mercantilização” de determinadas práticas religiosas neopentecostais, especialmente na relação entre bens simbólicos, mídia, dinheiro e promessa de bênçãos.. A Guerra espiritual contra as forças demoníacas tem no exorcismo e nas sessões de libertação sua prática central e concentra-se na figura do Diabo como explicação para fracassos, doenças e vícios. Além disso, também é muito presente a demonização de religiões afro-brasileiras, prática que recebe a nomenclatura de Racismo Religioso.

A Teologia da prosperidade acentua a distinção teológica entre o neopentecostalismo e as ondas pentecostais anteriores.. Nessa lógica de pensamento, a riqueza é observada como um sinal de fé e bênção divina. Já a pobreza, por sua vez, como resultado de falta de fé ou maldição. A prática do dízimo e da oferta são vistas como “sementes” de prosperidade, partindo da premissa de que quanto maior sua contribuição, mais recompensado financeiramente você será pelo Divino.
A flexibilização dos costumes tradicionais marca a expansão da presença neopentecostal na grande mídia e em veículos de comunicação. Diferentemente de vertentes mais ascéticas, os neopentecostais passam a integrar a mídia hegemônica brasileira. Com a compra da TV Record pelo bispo evangélico e teólogo Edir Macedo, em 1989, se intensifica a presença das igrejas nos meios de comunicação tradicionais, como a televisão e o rádio. Posteriormente, já no contexto da expansão da internet, essa presença também passa a englobar as redes sociais. Além disso, o grupo também passa a ser ativamente influente na política nacional, formando a conhecida bancada evangélica. A entrada das lideranças evangélicas na política brasileira se intensifica desde a redemocratização e ganha maior visibilidade na Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988. A ligação da Igreja Universal ao Partido Republicano Brasileiro (PRB/Republicanos) em 2005, portanto, marcou um processo contínuo de inserção de fiéis e pastores no processo eleitoral brasileiro, permitindo assim que estes exerçam certa influência em pautas que dizem respeito aos costumes, aos direitos humanos e para muitos, põe em discussão a laicidade do Estado.
Em sua obra Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, Ricardo Mariano tece algumas relevantes críticas ao pensamento neopentecostal, em especial aos perigos por trás da Teologia da Prosperidade e da mercantilização da fé. Ele ilumina o risco de a Teologia da Prosperidade aprofundar desigualdades ao culpabilizar o pobre pela própria pobreza, uma vez que ao acreditarem que devem ser felizes, prósperos e saudáveis graças a sua fé, os fiéis tendem a sentirem-se culpados quando estão doentes, desempregados ou deprimidos.

Diante desse panorama histórico apresentado, o neopentecostalismo pode ser compreendido como resultado de um processo contínuo de reconfiguração do campo evangélico pentecostal brasileiro, no qual diferentes formas de expressão da fé se adaptam às transformações sociais e culturais de seu tempo. Longe de representar uma ruptura isolada da teologia das outras vertentes pentecostais, esse movimento se insere em uma trajetória de expansão da fé pentecostal, ao mesmo tempo em que introduz elementos inovadores, como a intensificação do uso dos meios de comunicação, a centralidade da teologia da prosperidade e novas formas de atuação no espaço público, em especial, na política.
Ryanne Eduarda Lourenço Araújo (UEPB/CEPRIR)
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Interessada em temas de diplomacia, economia política internacional e religião nas relações internacionais, Islã Político e feminismo islâmico.
Recomenda-se a leitura de:
FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. In: ANTONIAZZI, Alberto et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
ORO, Ari Pedro. Religião e mercado: a mercantilização do sagrado. Petrópolis: Editora Vozes, 1992.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.
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