Por Maria Eduarda Lima Silva (UEPB)

Os atos golpistas de 8 de janeiro repercutiram nacional e internacionalmente como um atentado contra o republicanismo, a civilidade e o povo brasileiro que, apenas uma semana antes, havia entregado a faixa presidencial ao 39° presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
Dentre os 1.398 presos no Distrito Federal, há pouca homogeneidade; são homens e mulheres de todas as idades, classes sociais e logradouros que, a princípio, teriam pouco em comum, mas que encontraram no bolsonarismo uma comunidade onde podiam falar a mesma língua e lutar pelos mesmos ideais.
Ainda que não tenham origem religiosa, os atos em frente aos quartéis, mas também os grupos e fóruns de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais, rememoram a estratégias utilizadas por grupos que tradicionalmente o são. Uma delas, familiar para os pesquisadores de neopentecostais, é a de expulsar aqueles que seriam os responsáveis pela desgraça da nação, inclusive através do uso da força.
Aqui, entenderemos melhor a estratégia neopentecostal, a guerra espiritual e os atos golpistas.
“Seu povo reconstruirá as velhas ruínas e restaurará os alicerces antigos; você será chamado reparador de muros, restaurador de ruas e moradias.”
Is 58:12
A estratégia neopentecostal: política, barganha e guerra
Conhecida pelos programas de televisão, pelos templos histriônicos e pelos pastores polêmicos, a onda neopentecostal é a terceira do movimento pentecostal brasileiro e, a priori, diferenciou-se de suas antecessoras pela ruptura com a doutrina ascética e sectarista em função de uma organização empresarial e verticalizada de suas igrejas e a busca por prosperidade material.
Além disso, desde o princípio, houve a admissão e o incentivo à presença dos líderes neopentecostais na política partidária em busca de livrar a nação dos demônios a que ela está vulnerável, como podemos identificar através das ações políticas do maior expoente – e também a fundadora – desta onda, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que é politicamente ativa desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1986, onde elegeu seu primeiro deputado federal, Roberto Augusto Lopes, um dos fundadores da IURD e à época filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
Contudo, em função do sucesso de seus métodos, a corrente neopentecostal perdeu sua distintividade inicial, tendo sido copiada por inúmeras igrejas e pastores Brasil afora (MARIANO, 2013). Dessa maneira, é possível falar de uma disseminação da estratégia neopentecostal desassociada das igrejas e líderes neopentecostais, tido que outras vertentes evangélicas também passaram a fazer uso de ferramentas originadas na corrente para ganhar os corações e as almas dos fiéis, mas também seus votos.
A partir do exemplo dado pela IURD, outras congregações e vertentes passaram a garantir a presença de seus líderes na política, como é o caso da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia. Ademais, os líderes religiosos que fazem uso das estratégias neopentecostais se apropriam também da Teologia da Prosperidade que, embora não tenha nascido com o Neopentecostalismo, destacou-se através de seu uso.
A Teologia da Prosperidade acredita que é no apelo financeiro que está a resposta para que o fiel alcance o sucesso e a felicidade, uma vez que prega a confissão positiva e consagra o sacrifício através do pagamento do dízimo como uma demonstração de fé em Deus, mas também na igreja como um instrumento de transformação em nome dEle. Aqui, a equação é clara: quanto maior o sacrifício, maior a bonanza. Através da barganha impressa nesse toma-lá-dá-cá, o devoto se porta como credor do Divino, pagando pelos milagres antecipadamente. Caso o pedido não se realize, é sinal de que não foram feitas doações e orações suficientes, sendo o fiel culpado pela ausência de prosperidade.
Em última medida, apenas essas duas ferramentas não bastam para conseguir espaço em mercados tão concorridos como o político e o eclesiástico, sendo necessário o estabelecimento de uma que destrua os rivais tanto no plano mundano, quanto no espiritual. Sendo assim, torna-se necessário o estabelecimento de uma guerra em ambos os planos.
A guerra espiritual: a política neopentecostal por outros meios

A Teologia do Domínio, também chamada de guerra espiritual, pode ser entendida como o comportamento com o qual os adeptos da doutrina neopentecostal se voltam aos seus desafetos, a quem consideram estar dominados por demônios que desejam afastá-los dos caminhos de Deus.
De acordo com esta teologia, esses demônios não seriam indivíduos, mas grupos que convenientemente são associados a afrodescendentes, indígenas, pessoas LGBTQIA+, membros de outras denominações religiosas e dissidentes políticos, e sobre quem recairia a responsabilidade pelas mazelas sociais que atingem o país, dentre elas, a desigualdade.
As soluções para que esses demônios sejam expulsos é a eleição de fiéis para cargos públicos, através do qual haveria a neutralização da ação dos demônios visando garantir prosperidade para o país, mas também que aqueles que temem a Deus estabeleçam uma guerra para ganhar espaço e derrotá-los.
A utilização da palavra guerra não é eufemismo; para garantir espaço, por vezes é incentivado o uso da força contra opositores, vide a destruição de templos, terreiros, centros espíritas e, mais recentemente, repartições públicas.
“Fortalecei-vos no Senhor e na força do Seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes. Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz; tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.”
Ef 6:10-17
“Deus será nosso escudo.”
Fala da Pra. Mari Santos do Ministério Internacional da Restauração durante atos golpistas em Brasília
Os atos golpistas: mais uma guerra em nome de Deus

A guerra contra o que não é santo, pois, ganha novos contornos com os últimos acontecimentos no país quando aos velhos inimigos somaram-se outros: agora, os três Poderes da República são desafetos, salvo os poucos membros que se posicionaram a favor dos atos golpistas.
É importante ressaltar que não há indícios de que os atos golpistas façam parte de uma tentativa neopentecostal para alcançar poder; apesar disso, comprovou-se que algumas lideranças organizaram, participaram e financiaram os QGs, as caravanas e os atos, e a semelhança entre estas novas guerras e as estabelecidas desde o surgimento da estratégia neopentecostal são claras.
Em entrevista à Agência Pública, Nilza Valéria, coordenadora da Frente Evangélica pelo Estado de Direito, apontou o discurso religioso como motivador ideológico dos atos em Brasília e completou: “O discurso religioso, descolado de uma formação de base, de conceitos de cidadania, gera o cenário ideal para cenas que a gente viu, com pessoas cantando louvores e orando, como se estivessem ganhando uma guerra”.
Não há dúvidas de que, para os golpistas, ali estava estabelecida uma guerra espiritual. Neste sentido, a destruição de tudo aquilo que remete aos inimigos do povo de Deus seria justificada, contraditoriamente, como uma política de redução de danos: depredar para reconstruir nos moldes da santidade desejada.
Maria Eduarda Lima Silva
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do grupo do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica (PIBIC – UEPB), cota 2021-2022, com o projeto A Ascensão do Neopentecostalismo com Ator Relevante da Política Brasileira.
Este texto não deve ser reproduzido sem permissão.
Referências
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