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Os movimentos do papa para mediar a guerra da Ucrânia

Francisco se reúne com Luiz Inácio Lula da Silva para tratar do conflito no leste europeu. Líder religioso tem buscado retomar tradição do Vaticano de atuar pelo fim de embates geopolíticos

Por Marcelo Montanini

Publicado originalmente em 21 de junho de 2023, em Nexo Jornal.

 FOTO: VATICAN MEDIA/HANDOUT/REUTERS 18/06/2023 

O papa Francisco se reuniu nesta quarta-feira (21) com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Vaticano, para tratar, entre outros assuntos, da guerra entre Rússia e Ucrânia.

O pontífice vem buscando se posicionar como um possível mediador do conflito no Leste Europeu — já disse ter um plano de paz, tem conversado com líderes internacionais e enviou um representante para Kiev. Deve fazer o mesmo em relação a Moscou.

Neste texto, o Nexo mostra como o líder da igreja católica se movimenta para tentar mediar a guerra na Ucrânia, que completa 16 meses em junho de 2023, e como ele retoma uma tradição de outros papas em negociações de conflitos.

Os movimentos de Francisco

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o papa Francisco faz manifestações frequentes pedindo paz. Ele tem tentado manter uma posição equidistante entre Kiev e Moscou e já críticas aos russos e à Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte), que apoia a Ucrânia.

Em entrevista ao jornal católico Civilta Cattolica, em 14 de junho de 2022, o papa afirmou que as ações russas na Ucrânia são “brutais, cruéis e ferozes”. Ele citou também que meses antes da guerra encontrou com uma autoridade da Otan que teria lhe dito que a aliança militar ocidental estava “latindo nos portões da Rússia”. “A guerra é como um casamento, de certa forma. Para entender, precisamos investigar a dinâmica que desenvolveu o conflito. Há fatores internacionais que ajudaram a provocar a guerra”, disse.

A declaração gerou críticas de países da aliança militar ocidental, que enxergaram na fala de Francisco o mesmo discurso do Kremlin de que a Otan estaria provocando a Rússia. Em 2 de outubro de 2022, Francisco pediu ao presidente russo, Vladimir Putin, que acabe com a “espiral de violência” na Ucrânia e criticou as anexações de territórios ucranianos, as quais considerou “contrárias ao direito internacional”. Mas também fez um apelo ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para que esteja “aberto a propostas de paz sérias”.

Enquanto desperta controvérsias com algumas de suas falas, Francisco também se movimenta para mediar o conflito. Em 30 de abril de 2023, ele afirmou a jornalistas que o Vaticano estava envolvido em uma missão de paz para tentar pôr fim ao conflito no Leste Europeu. Ainda não está claro qual é a proposta de paz do Vaticano.
A declaração ocorreu após uma viagem a Budapeste, onde o pontífice falou, entre outras coisas, sobre a guerra na Ucrânia com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Órban, e com o arcebispo Hilarion, representante da Igreja Ortodoxa Russa em Budapeste.

O papa tem tratado sobre a guerra em suas agendas com outros líderes internacionais. Em 27 de abril, ele recebeu Denys Shmyhal, primeiro-ministro da Ucrânia, no Vaticano, e disse que discutiu sobre a “fórmula de paz” para o conflito. Em 13 de maio foi a vez de Francisco receber Zelensky, no Vaticano. Ao final do encontro, o líder ucraniano disse a jornalistas que dispensava a mediação do papa. “Com todo o respeito à Sua Santidade, não precisamos de mediadores, precisamos de uma paz justa”, disse.

Em 6 de junho, o Vaticano enviou o cardeal italiano Matteo Zuppi a Kiev. E agora estaria preparando uma ida de Zuppi a Moscou. Zuppi é o arcebispo de Bolonha, na Itália, e integra a Comunidade de Santo Egídio, grupo cristão pacifista que ajudou a mediar acordos de paz nas guerras civis de Moçambique, em 1992, da Guatemala, em 1996, e do Burundi, nos anos 2000.

“Por mais que a atuação do papa Francisco não tenha sido tão direta ainda, indiretamente ele começou a criar esses canais de diálogo ou dar indicativo da criação desses canais”, afirmou ao Nexo Fábio Nobre, professor de relações internacionais da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) e coordenador do CEPRIR (Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião).

Lula no plano de Francisco

Na reunião desta quarta-feira (21), Lula e Francisco trataram de questões ambientais e sociais. O presidente brasileiro também convidou o chefe da Santa Sé para o Círio de Nazaré, previsto para 8 de outubro em Belém, no Pará.

Mas a pauta principal do encontro foi a guerra na Ucrânia. Ambos manifestaram o interesse em mediar o conflito. Lula costuma externar uma visão similar à de Francisco sobre a responsabilidade pela guerra, às vezes irritando os países ocidentais que apoiam Kiev.

A jornalista vaticanista Franca Giansoldati, do jornal italiano Il Messagero, destacou que Lula é um dos poucos líderes mundiais que não está em posição de confronto com Putin e mantêm boa relação com países do ocidente. E, desta forma, poderia entre outras coisas ajudar a criar condições para Zuppi viajar a Moscou, como parte do plano de abrir canais de diálogo para a paz, mas também fortalecer, juntos, uma iniciativa global nesse sentido.

PRESIDENTE LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA DURANTE REUNIÃO EM BRASÍLIA
FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS 25/05/2023


Lula tem defendido um “clube da paz”, ideia de criação de um grupo de países não envolvidos diretamente na guerra para negociar o fim dos combates. Celso Amorim, ex- chanceler e assessor especial do presidente brasileiro, já viajou aos dois países em conflito.

A intenção da Santa Sé se soma a outros planos de paz apresentados para a resolução do conflito. Em 16 e 17 de junho, sete líderes africanos viajaram a Kiev e a São Petersburgo e fizeram reuniões com Zelensky e Putin para apresentar uma proposta de paz para a guerra.

Também em junho, a Indonésia propôs um plano de paz, que incluía cessar-fogo, estabelecimento de uma zona desmilitarizada e realização de um referendo das Nações Unidas sobre o território em disputa. Em fevereiro, a China apresentou sua proposta de paz e, em maio, enviou um representante para Kiev e para Moscou para discutir uma solução para o conflito.

A diplomacia do Vaticano

O Vaticano tem um histórico de mediação de conflitos. Francisco vem tentando retomar um papel já exercido por outros chefes da Santa Sé, após um período de retração dessa postura, sob a gestão do papa Bento 16 (2005-2013). “Ele tem esse olhar da figura do papa como mediador de conflito”, afirmou Carletti, da Universidade Federal do Pampa.

O papa João Paulo II (1978-2005) atuou no conflito de Beagle, em 1978, entre Argentina e Chile, por três ilhas no Oceano Atlântico. Ele também participou de negociações relacionadas a Guerra Fria e o fim da União Soviética.

“A neutralidade é uma das características da política externa do Vaticano”, [O papa] não tem como se colocar de um dos lados. Ele pode até ter sua posição pessoal, mas não pode externar. Ele é uma figura supranacional e religiosa, e como tal é pró-paz”

Anna Carletti, autora da citação acima, é também autora do livro “O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial: a diplomacia pontifícia da Guerra Fria aos nossos dias”, publicado pela Funag (Fundação Alexandre Gusmão) em 2012. Ela ponderou que, apesar de neutra, a política externa do Vaticano depende de cada chefe de Estado. João Paulo II, por exemplo, por ser um polonês, cujo país foi ocupado durante o período soviético, teve uma postura mais assertiva em oposição ao comunismo.

Os especialistas ouvidos pelo Nexo explicam que “Bento XVI foi o ponto fora da curva” no quesito mediação. Durante o papado, ele evitou tratar de política e centrou-se nas questões teológicas.

Francisco, todavia, já vinha tentando retomar a tradição pontifícia antes do início do conflito na Ucrânia. Ele participou da mediação do acordo de paz na Colômbia, assinado entre o então presidente Juan Manuel Santos e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016 — encerrando mais de 50 anos de conflito.

O papa também atuou pelo acordo entre EUA e Cuba, assinado pelos então presidentes americano Barack Obama e cubano Raúl Castro, em 2014, que visava o restabelecimento diplomático e a revisão gradual dos embargos econômicos. O acordo depois foi revisto em 2017 pelo ex-presidente Donald Trump.

“O grande capital que a igreja católica tem é a sua credibilidade. Então, em países cristãos, a igreja e o papa tendem a atuar de maneira ativa porque a sua fala vale muito. O público que recebe esse discurso vai levar bastante em consideração aquilo que ele está colocando”

Afirmou Nobre, da UEPB.

Rússia e Ucrânia, no entanto, são países cuja religião predominante é a cristã ortodoxa, o que configura um desafio diferente para Francisco e para o Vaticano. Nobre ponderou que, por causa disso, um dos trabalhos que Francisco está enfrentando ou tendo que colocar na sua equação é que precisa dialogar diretamente com as autoridades ortodoxas, em especial o patriarca de Moscou, Cirilo I. “O que faz com que talvez a interferência ou a influência de Francisco seja diluída”, disse.

“Se ele se envolve em uma a grande iniciativa global de mediação, de busca pela paz, que pode ou não ter o Brasil e outros países do Sul Global com esse interesse, eu entendo que há uma tendência tanto de Francisco fortalecer essa iniciativa quanto a iniciativa fortalecer a credibilidade de Francisco”, acrescentou o professor da UEPB.


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