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O Vaticano e a Política da Paz: Da Pacem in Terris à Populorum Progressio

Por Marcos Carvalho Neto (UEPB/CEPRIR)

A Guerra Fria foi responsável por moldar relações de poder e explicar a influência de atores como a Santa Sé na sociedade internacional até os tempos contemporâneos. Esse período ficou conhecido por dividir o mundo em dois sistemas inconciliáveis, que representavam não apenas visões econômicas distintas, mas também formas profundamente diferentes de compreender a humanidade. Diante desse cenário de oposição e de conflitos que culminavam na corrida armamentista, um ator que se dizia voz da moral emergiu como conciliador: o Vaticano. Desde o pós-guerra, a Santa Sé percebeu que sua sobrevivência e relevância no meio político dependiam de uma inserção efetiva na nova ordem internacional. Foi então que optou por uma diplomacia considerada peculiar à época, baseada no simbolismo e nos valores morais, buscando estabelecer uma ética de convivência entre as nações e manter sua influência global.

Em 1958, quando a sociedade internacional era marcada pelo medo e pelas incertezas decorrentes do avanço da corrida nuclear, foi eleito o Papa João XXIII. Chamado por muitos de carismático e humilde, destacou-se por propor uma Igreja mais voltada ao diálogo do que ao confronto. Rompendo com o estigma de distância e autoritarismo associado à figura papal, João XXIII foi visto por muitos como um pastor capaz de unir fé e humanidade. Um dos marcos simbólicos dessa nova postura foi a encíclica Pacem in Terris (1963), escrita em plena Guerra Fria, logo após a Crise dos Mísseis em Cuba. A carta afirmava ser dirigida “a todos os homens de boa vontade”, ou seja, não apenas aos fiéis, mas a todos os seres humanos, independentemente de sua fé e de seus dogmas religiosos. Nela, o Papa defendeu princípios universais como a dignidade da pessoa humana, o respeito entre as nações e a cooperação global, condenando explicitamente a corrida armamentista e afirmando que a paz deveria ser fruto da solidariedade e da justiça, e não do medo.

Essa perspectiva diferenciada conferiu grande destaque à diplomacia vaticana, e a Santa Sé passou a atuar como mediadora em conflitos — não em nome de um bloco específico, mas como porta-voz da humanidade — papel que poucas instituições conseguiram sustentar legitimamente durante a Guerra Fria. Essa postura impulsionou mudanças internas, como a convocação do Concílio Vaticano II (1962–1965). O Concílio teve como propósito atualizar a Igreja, aproximando-a da sociedade moderna e afastando-a da postura de antagonismo aos costumes contemporâneos, reconhecendo a pluralidade como elemento essencial da experiência humana.

Esse “contrato” entre a Igreja Católica e a sociedade não foi apenas simbólico. Durante o Concílio foi criada a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, documento fundamental para redefinir a imagem da Igreja no mundo contemporâneo. Seu objetivo era defender os princípios universais anteriormente sustentados pelo Papa e, em conjunto, analisar os desafios econômicos, sociais e políticos do novo mundo, reafirmando os deveres morais e políticos da Santa Sé.

Com a morte de João XXIII, em 1963 — pouco tempo após a publicação da Pacem in Terris —, instaurou-se o sentimento de que se havia perdido um dos poucos líderes capazes de falar realisticamente em nome da paz. Apesar de seu breve papado de apenas quatro anos, João XXIII deixou um grande legado, sendo lembrado como “o Papa bom”. Seu sucessor, Paulo VI, decidiu dar continuidade às reformas iniciadas por ele, buscando consolidar e amadurecer a diplomacia vaticana. Para isso, empreendeu visitas históricas e aprofundou a prática diplomática, razão pela qual ficou conhecido como “o Papa das viagens”.

Sua atuação marcou a história por elevar a presença papal a uma nova escala. Um dos momentos mais emblemáticos de seu pontificado foi o discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1965, no qual proclamou o célebre apelo: “Nunca mais a guerra, nunca mais uns contra os outros, mas sempre uns com os outros”. A atitude foi profundamente simbólica, pois o líder da maior comunidade religiosa do mundo se posicionava não em defesa de interesses próprios, mas da paz da humanidade. Esse gesto e sua visão ampliaram o diálogo com o mundo socialista e com os países do Terceiro Mundo, representando uma expansão da política iniciada por João XXIII. Foi nesse contexto que se iniciou a chamada Ostpolitik vaticana — um conjunto de estratégias de aproximação com os regimes comunistas do Leste Europeu, visando reduzir tensões e proteger as comunidades católicas locais.

Essa postura, pautada na prudência e na empatia, demonstrava que a Santa Sé também podia agir com realismo político. O Vaticano passou a manter relações com um número crescente de países em desenvolvimento, e o Papa incentivou a criação de conferências episcopais regionais, como o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), estimulando o debate sobre desigualdade e pobreza. Em 1967, Paulo VI publicou uma de suas encíclicas mais importantes no contexto do pós-guerra, Populorum Progressio, na qual afirmou que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Seu objetivo era conectar a doutrina social da Igreja às discussões internacionais sobre equidade econômica, aproximando a instituição religiosa das agendas políticas emergentes do Terceiro Mundo, que viam o subdesenvolvimento como causa de conflitos e instabilidade.

Embora muitos de seus interesses se alinhassem aos de seu antecessor, Paulo VI concentrou-se nas desigualdades globais. Diferentemente de João XXIII, cujo foco era a reconciliação entre os blocos, Paulo VI via na pobreza e na exclusão social os maiores inimigos da paz. Sua diplomacia fundia a herança moral da Pacem in Terris a uma visão geopolítica mais pragmática. Além disso, o Papa aprofundou o diálogo inter-religioso, reconhecendo que a pluralidade de credos poderia servir de instrumento de cooperação, e não de conflito. Durante seu pontificado, a Santa Sé participou de encontros com líderes de diversas tradições religiosas, promovendo uma cultura de entendimento mútuo.

Essas aproximações com o Terceiro Mundo, contudo, não estiveram isentas de tensões. Alguns regimes autoritários da América Latina viram com desconfiança as posições de Paulo VI, temendo que a Igreja se tornasse promotora da justiça social e criasse uma rede internacional de influência. Ainda assim, o Papa consolidou a presença da Santa Sé em conferências e fóruns multilaterais, antecipando, de certo modo, a globalização política que caracterizaria o final do século XX.

Sob minha perspectiva, o que se perpetua em ambos os papas — João XXIII e Paulo VI — é a compreensão de que o poder da Igreja no mundo moderno deixou de ser coercitivo e passou a depender de sua autoridade moral. Isso os levou a se posicionarem abertamente sobre temas como guerra, colonialismo e pobreza, transformando o Vaticano em algo além de uma instituição tradicionalmente europeia: um agente global. O legado de ambos ultrapassou o contexto histórico da Guerra Fria, reformando a imagem da Santa Sé e tornando-a mais “humanizada” e menos autoritária. Ficou claro que a intenção do Vaticano, nesses períodos, foi sobretudo a de humanizar a política internacional. Mesmo após tantas décadas, a diplomacia moral do Vaticano persiste, como se observa em líderes recentes, como o Papa Francisco, reconhecido por suas intervenções em questões ambientais e sociais, e por afirmar que a Igreja deve estar “em saída”, próxima dos que sofrem.


Marcos Antonio Amorim de Carvalho Neto

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Monitor da disciplina de História das Relações Internacionais II. Interessado em temas de diplomacia, política internacional e religião nas relações internacionais. Currículo Lattes.


Recomenda-se a leitura de

CARLETTI, Anna. O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial: a diplomacia pontifícia da Guerra Fria aos nossos dias. Brasília: FUNAG, 2012. 

DE ALMEIDA, Antonio José. João XXIII, o Papa do Concílio. “Veio Um Homem Enviado por Deus Cujo Nome Era João” Revista Pistis & Praxis: Teologia e Pastoral, Vol. 4, Núm. 2, Julio-diciembre, 2012.

SILVA DIAS, Tiago. MOREIRA, Maria A. F. Perspectivas históricas do Concílio Vaticano II à luz da ação dos Papas João XXIII e Paulo VI. Encontros Teológicos, Florianópolis, V.37, N.3, Set.-Dez. 2022

SOUZA, Ney; GOMES, Edgar S. Os Papas do Vaticano II e o Diálogo Com a Sociedade Contemporânea. Teocomunicação, Porto Alegre V. 44, N. 1, P. 5-27 Jan.-abr. 2014

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