Por Fábio Nobre (UEPB/CEPRIR)
A compreensão do monoteísmo como uma característica originária da religião israelita ocupa um lugar importante na tradição judaico-cristã. Segundo essa perspectiva, a adoração exclusiva a Yahweh teria acompanhado Israel desde seus primeiros momentos, enquanto a presença de outras divindades representaria um desvio religioso, frequentemente associado à influência dos povos vizinhos. Essa interpretação, amplamente difundida pela narrativa bíblica, apresenta algumas dificuldades quando confrontada com os estudos históricos sobre as sociedades do antigo Oriente Próximo. É precisamente nesse campo de discussão que se insere História primitiva de Deus: Yahweh e outras divindades no antigo Israel, de Mark S. Smith, publicada originalmente em 1990 e lançada no Brasil pela Editora Vozes, em 2023.
O livro parte de uma questão fundamental para a história das religiões. Como Yahweh passou a ocupar a posição de divindade exclusiva em uma sociedade cuja formação religiosa esteve vinculada às tradições politeístas da região? Para responder, Smith examina as relações entre o culto israelita e as divindades conhecidas no ambiente religioso cananeu, particularmente El, Baal e Asherah. Sua investigação questiona a ideia de que o monoteísmo israelita tenha surgido como uma tradição plenamente constituída, posteriormente ameaçada por práticas religiosas externas. As evidências reunidas apontam para um desenvolvimento histórico mais complexo, no qual diferentes formas de devoção coexistiram e foram progressivamente reorganizadas.

Uma das contribuições mais relevantes da obra está na maneira como Smith procura compreender a religião israelita a partir de seu próprio contexto histórico. O autor trabalha com textos bíblicos, inscrições antigas e evidências arqueológicas, recorrendo também à literatura religiosa de Ugarit para identificar aproximações entre as tradições do Levante. Esse procedimento permite deslocar a análise das explicações exclusivamente teológicas para uma investigação sobre as condições históricas em que determinadas concepções de divindade foram elaboradas.
O argumento central do livro está organizado em torno de dois processos, definidos por Smith como convergência e diferenciação. O primeiro corresponde à incorporação de características originalmente associadas a outras divindades na figura de Yahweh. O segundo diz respeito à progressiva distinção entre o culto javista e práticas religiosas que anteriormente faziam parte da própria tradição israelita.
A convergência ajuda a compreender, por exemplo, a identificação entre Yahweh e El, divindade que ocupava uma posição central no panteão cananeu. A partir dessa aproximação, títulos e atributos associados a El passaram a integrar a caracterização de Yahweh. Algo semelhante ocorreu com determinados elementos da representação de Baal, sobretudo aqueles relacionados à tempestade e ao poder divino. Smith demonstra que a construção histórica da identidade de Yahweh envolveu a incorporação de imagens religiosas já conhecidas pelas populações da região.
Essa interpretação tem consequências importantes. A formação do javismo ocorreu em um ambiente no qual as fronteiras entre diferentes tradições religiosas eram consideravelmente mais permeáveis do que sugerem algumas leituras posteriores dos textos bíblicos. A presença de características compartilhadas entre Yahweh e outras divindades indica que a religião israelita participou de um repertório religioso mais amplo, ainda que tenha desenvolvido particularidades ao longo de sua trajetória.
A discussão sobre Asherah constitui outro momento significativo da obra. Associada à tradição religiosa cananeia, essa divindade aparece em um conjunto de evidências que suscita debates sobre seu lugar na religião israelita. Smith examina especialmente a possibilidade de que referências à asherah indiquem, em determinados contextos, um objeto cultual, e não necessariamente a adoração direta à deusa. Sua posição é cautelosa diante das interpretações que identificam uma consorte de Yahweh no período monárquico.
Essa cautela merece atenção porque revela uma preocupação metodológica presente em diferentes partes do livro. Smith reconhece a importância das evidências disponíveis, mas procura distinguir aquilo que elas permitem afirmar das reconstruções que permanecem dependentes de hipóteses. A própria discussão sobre Asherah demonstra como documentos relativamente fragmentários podem sustentar interpretações divergentes. Em lugar de eliminar essas dificuldades, o autor as incorpora à análise.
A segunda dimensão de seu argumento, a diferenciação, permite compreender a progressiva rejeição de práticas que anteriormente integravam a experiência religiosa israelita. A condenação do culto a Baal, das referências à asherah e de determinadas práticas funerárias expressa uma transformação na maneira como a comunidade passou a definir sua própria identidade religiosa. Tradições anteriormente compartilhadas começaram a ser apresentadas como incompatíveis com a adoração a Yahweh.

Esse processo esteve relacionado às transformações da organização política israelita. Smith atribui importância à monarquia na consolidação do culto nacional, observando que a elevação de Yahweh à posição de divindade central não implicou inicialmente a eliminação das demais formas de devoção. Durante parte considerável do período monárquico, a religião oficial conviveu com práticas religiosas distintas, algumas delas legitimadas ou patrocinadas pelo próprio poder real.
A situação se modificou especialmente durante a segunda metade da monarquia, quando programas de reforma religiosa contribuíram para redefinir as práticas consideradas legítimas. As iniciativas associadas aos reinados de Ezequias e Josias aparecem, nesse contexto, como parte de um movimento de centralização cultual e delimitação da identidade religiosa. A transformação do javismo estava, portanto, relacionada às condições políticas que possibilitaram a reorganização das instituições religiosas.
É nesse ponto que o livro oferece possibilidades de diálogo com os estudos sobre religião e política. A formação de uma identidade religiosa exclusiva não pode ser compreendida independentemente das estruturas de autoridade que participaram de sua institucionalização. A definição de práticas legítimas e a condenação de tradições concorrentes envolveram disputas sobre a organização do culto e sobre as formas de pertencimento à comunidade. A religião israelita, tal como reconstruída por Smith, apresenta-se como uma tradição historicamente construída, atravessada por mudanças nas relações entre as instituições religiosas e o poder político.
O desenvolvimento do monoteísmo constitui o desdobramento mais importante desse processo. Smith distingue a adoração exclusiva a Yahweh da afirmação de que nenhuma outra divindade existe. Essa distinção entre monolatria e monoteísmo é fundamental para compreender sua interpretação. A existência de uma divindade nacional predominante não significava necessariamente a negação das demais divindades. A formulação inequívoca do monoteísmo aparece de maneira mais clara em textos associados ao exílio babilônico, particularmente no Segundo Isaías.
A experiência do exílio ocupa, assim, um lugar importante na reconstrução apresentada pelo autor. A perda das estruturas políticas do reino de Judá e a continuidade das tradições religiosas em novas circunstâncias contribuíram para a elaboração de concepções mais exclusivas sobre Yahweh. O monoteísmo resultante desse desenvolvimento não corresponde simplesmente à preservação de uma crença ancestral. Ele expressa uma transformação na maneira como os israelitas passaram a compreender a relação entre sua divindade, sua comunidade e o mundo.
Isso não significa, entretanto, que Smith ofereça uma explicação linear ou definitiva para o surgimento do monoteísmo. O próprio autor reconhece as limitações impostas pela documentação disponível, especialmente para os períodos mais antigos. A maior parte das evidências textuais passou por processos de composição e transmissão que dificultam a reconstrução das práticas religiosas anteriores. Além disso, as narrativas bíblicas frequentemente apresentam o passado a partir de preocupações teológicas formuladas em contextos posteriores.
Essa questão merece destaque em uma avaliação crítica da obra. A reconstrução histórica proposta por Smith depende, em diversos momentos, de aproximações entre fontes produzidas em períodos distintos. Embora essas comparações sejam conduzidas com atenção filológica e histórica, a identificação de continuidades religiosas nem sempre permite determinar com precisão as circunstâncias sociais de sua transmissão. O autor reconhece parte considerável dessas dificuldades, sobretudo no prefácio à segunda edição, quando discute os desafios da interpretação das evidências e os limites das grandes sínteses históricas.
Também se pode observar que a centralidade atribuída às transformações das representações divinas deixa algumas questões sociais relativamente menos desenvolvidas. A investigação das experiências religiosas cotidianas e da participação de diferentes segmentos da população poderia aprofundar a compreensão dos processos analisados. As distinções entre religião oficial e práticas domésticas aparecem na obra, mas a documentação disponível impõe limites à reconstrução das relações entre esses espaços. A identificação desses limites, contudo, não reduz a contribuição do livro. Ela ajuda a situar seu alcance e a compreender os problemas que permanecem abertos à investigação.
Para os estudos sobre religião e política, o trabalho de Smith oferece uma contribuição que ultrapassa seu recorte histórico. Sua análise demonstra a necessidade de compreender as tradições religiosas a partir dos processos que produziram suas formas de autoridade e seus critérios de legitimidade. A associação posterior entre uma comunidade e determinada identidade religiosa tende, muitas vezes, a apresentar como originárias características que foram estabelecidas em circunstâncias históricas específicas.
Essa observação é particularmente relevante quando consideramos a maneira como determinadas interpretações religiosas são utilizadas para fundamentar reivindicações de continuidade histórica. O passado religioso frequentemente é mobilizado como referência de autenticidade, enquanto experiências que não correspondem às formulações posteriormente consolidadas são classificadas como desvios. A investigação de Smith permite perceber como essas classificações também possuem uma história.
História primitiva de Deus é uma obra exigente, especialmente pela quantidade de referências textuais e pela densidade de suas discussões filológicas. Sua leitura pressupõe alguma familiaridade com a literatura bíblica e com a história do antigo Oriente Próximo. Ainda assim, o argumento principal permanece acessível ao leitor interessado em compreender as origens históricas do monoteísmo. O mérito do livro está na capacidade de reunir um conjunto complexo de evidências e utilizá-las para questionar interpretações consolidadas sobre a formação da religião israelita.

Ao final, a principal contribuição de Mark S. Smith consiste em demonstrar que a identidade religiosa de Israel se formou por meio de relações com tradições que, posteriormente, seriam apresentadas como externas ou incompatíveis com o javismo. A história da adoração a Yahweh revela continuidades frequentemente obscurecidas pelas narrativas posteriores de exclusividade religiosa. Compreender esse desenvolvimento permite examinar o monoteísmo como resultado de processos históricos, sem confundir a reconstrução acadêmica dessas transformações com uma avaliação sobre a validade das crenças religiosas contemporâneas.
Para quem se interessa pelas relações entre religião e poder, trata-se de uma leitura especialmente proveitosa. O livro oferece elementos para refletir sobre como tradições religiosas são redefinidas ao longo do tempo e como determinadas interpretações passam a ocupar posições de autoridade. Talvez esteja aí sua contribuição mais duradoura: mostrar que a história das religiões exige atenção às disputas e transformações que antecedem a consolidação das identidades religiosas que hoje reconhecemos.
Referência da obra resenhada
SMITH, Mark S. História primitiva de Deus: Yahweh e outras divindades no antigo Israel. Tradução de Júlio Eduardo Ribeiro Reis Simões e Paulo Ferreira Valério. Petrópolis: Vozes, 2023. Original publicado em 1990; segunda edição inglesa de 2002.
Sobre o autor
Fábio Nobre é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/UEPB) e diretor nacional do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR). Desenvolve pesquisas nas áreas de Religião e Relações Internacionais, com especial interesse nas relações entre religião, violência e democracia.
Como citar este texto
NOBRE, Fábio Rodrigo Ferreira. O Deus de Israel sempre foi único? Uma leitura de História primitiva de Deus, de Mark S. Smith. CEPRIR – Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião, 2026. Disponível em: https://ceprir.org/2026/10/24/o-deus-de-israel-sempre-foi-unico-resenha-de-historia-primitiva-de-deus-de-mark-s-smith/
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