Por Thalia Santos (UEPB/CEPRIR)

A perseguição ao povo Rohingya em Mianmar constitui uma das mais graves crises humanitárias contemporâneas, marcada pela violência religiosa e pelo deslocamento forçado de milhares de pessoas. Historicamente, Mianmar é um país majoritariamente budista, cuja independência foi conquistada em 1948. Entretanto, apesar da predominância desse grupo religioso, o Estado também abriga uma diversidade de populações minoritárias, entre elas os muçulmanos Rohingyas. A perseguição sofrida por esse povo, contudo, não se restringe à dimensão religiosa, estando também relacionada ao nacionalismo, à busca pela suposta pureza étnica e ao uso de justificativas teológicas para legitimar práticas repressivas (Nobre, 2026).
Oficialmente, Mianmar reconhece 135 grupos étnicos, embora essa classificação seja marcada por disputas relacionadas ao reconhecimento das identidades e ao pertencimento nacional. Os conflitos étnicos no país também estão associados a processos históricos de formação do Estado e a reivindicações de autonomia e reconhecimento político (Carvalho, 2016). A religião mais difundida é o Budismo Theravada, uma das tradições budistas mais antigas ainda praticadas na atualidade, seguida por grande parte da população de maioria birmanesa (Nobre, 2017).
Por ser um grupo majoritariamente muçulmano e não integrar as etnias oficialmente reconhecidas em Mianmar, a população Rohingya enfrenta a constante negação de sua identidade, em um contexto de marginalização étnica e religiosa. Diante desse conflito no que tange ao reconhecimento da cidadania do povo Rohingya, diversas formas de violência são praticadas contra esse grupo, restringindo seu acesso aos serviços de saúde, à liberdade de circulação, à educação e à participação política (Nobre, 2017).
A Constituição de 1947 e a legislação de cidadania adotada após a independência estabeleceram possibilidades de reconhecimento da cidadania birmanesa, inclusive para parte da população Rohingya. Entretanto, a Lei da Cidadania de 1982 restringiu esse reconhecimento ao estabelecer critérios que privilegiavam indivíduos pertencentes às chamadas “raças nacionais”. A classificação oficial de 135 grupos étnicos, consolidada posteriormente, não incluiu os Rohingyas, contribuindo para a exclusão jurídica desse povo e para o agravamento de sua condição de apatridia (Nobre, 2026).
A discriminação contra o povo Rohingya envolve questões étnicas, religiosas e de gênero. Além de sofrer privações de seus direitos, essa população também enfrenta xenofobia e a negação de uma identidade nacional. Em discursos nacionalistas budistas, os Rohingyas são frequentemente chamados de “bengalis”, pois as autoridades de Mianmar procuram associá-los à população de Bangladesh, como se fossem estrangeiros ou imigrantes não pertencentes a Mianmar.

O movimento nacionalista budista extremista 969, posteriormente associado à organização MaBaTha, ampliou sua influência política por meio de discursos de ódio que apresentavam o budismo de Mianmar como estando sob ameaça da população muçulmana (Zin, 2015). Lideranças religiosas ligadas a esses movimentos contribuíram para associar a proteção do budismo à defesa da identidade nacional, reforçando a percepção dos muçulmanos como uma ameaça à sociedade birmanesa. Sob a justificativa de proteger a religião e a identidade nacional, esses discursos também contribuíram para a legitimação de atitudes discriminatórias contra essa minoria religiosa, incluindo o apoio a restrições aos casamentos inter-religiosos, considerados uma ameaça à identidade majoritariamente budista do país (Zin, 2015).
Considerados um dos maiores povos apátridas do mundo, os Rohingyas enfrentam perseguições e diferentes formas de violência, que também desencadearam uma grave crise de deslocamento forçado. Centenas de milhares de pessoas fugiram de Mianmar para Bangladesh em busca de segurança e sobrevivência. Entretanto, a chegada de um grande número de refugiados gerou desafios socioeconômicos para as comunidades de acolhimento, além de tensões relacionadas à segurança, ao emprego e ao custo de vida.
De acordo com Nobre (2017), a violência contra o grupo Rohingya não se limita às agressões físicas, mas também envolve mecanismos de exclusão sustentados pela religião e pelo Estado. Nesse contexto, embora associado a princípios de compaixão e não violência, o Budismo também é mobilizado para justificar a perseguição contra essa população, que é vista como uma ameaça à ordem nacional mianmarense.
Dessa forma, a religião contribui para legitimar a exclusão dos Rohingyas, transformando a violência em uma prática apresentada como necessária para a proteção da nação e de sua identidade religiosa (Nobre, 2017). A perseguição a essa população evidencia como a relação entre religião, Estado e identidade nacional pode contribuir para a manutenção da exclusão e para a continuidade das violações de direitos humanos.
Thalia da Silva Santos (UEPB/CEPRIR)
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Interessada em temas de diplomacia, direitos humanos, religião e política externa.
Recomenda-se a leitura de
CARVALHO, Paula. Fundamentalismo budista: história e caso do grupo 969 em Mianmar. Revista Escrita da História, [s. l.], v. 3, ed. 5, 2016. Disponível em: https://www.escritadahistoria.com/index.php/reh/article/view/54. Acesso em: 20 out. 2026.
NOBRE, Fábio. Religião e violência em conflitos intratáveis: a radicalização do budismo em Mianmar. Paraíba: Anais do 6º Encontro Nacional da ABRI, 2017.
NOBRE, Fábio (2026). A Nação como Templo: Budismo, Nacionalismo e a Violência contra os Rohingya em Mianmar. Conjuntura Internacional, v. 23, n. 1.
ZIN, Min. Anti-Muslim Violence in Burma: Why Now? Social Research: An International Quarterly, [s. l.], v. 82, n. 2, p. 375–397, 2015.
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