
Por Fábio Nobre (PPGRI UEPB / CEPRIR)
Durante boa parte do século XX, as principais teorias de Relações Internacionais dedicaram pouca atenção à religião. A centralidade atribuída aos Estados, às disputas de poder e aos interesses estratégicos contribuiu para consolidar interpretações da política mundial nas quais o fenômeno religioso aparecia como uma questão secundária. Essa marginalização parecia coerente com uma expectativa amplamente difundida nas Ciências Sociais: o avanço da modernidade reduziria progressivamente a influência pública da religião, deslocando-a para a esfera privada.
A história, entretanto, demonstrou os limites dessa previsão. A Revolução Iraniana de 1979, a participação da Igreja Católica nos processos de transformação política do Leste Europeu e a atuação de organizações religiosas em conflitos internacionais evidenciaram a permanência de atores e referências religiosas em processos políticos relevantes. Mais recentemente, a ascensão do nacionalismo hindu na Índia e a influência de movimentos cristãos conservadores sobre agendas políticas internacionais reforçaram a dificuldade de compreender determinados acontecimentos sem considerar suas dimensões religiosas.
Esses exemplos costumam ser associados ao chamado retorno da religião à política internacional. A expressão, embora bastante difundida, apresenta um problema. Para que a religião pudesse retornar, seria necessário admitir que, em algum momento, ela tivesse efetivamente desaparecido. O que parece ter ocorrido, entretanto, foi uma mudança na atenção dedicada ao fenômeno religioso pelas Relações Internacionais. Como observa Philpott (2009), o crescimento desse campo de estudos revela a necessidade de reconsiderar pressupostos que durante décadas orientaram a compreensão da política mundial.
A questão que se coloca, portanto, ultrapassa o reconhecimento da presença da religião nas relações internacionais. É necessário compreender por que determinadas tradições teóricas tiveram dificuldades para incorporá-la às suas explicações e quais consequências essa marginalização produziu para o desenvolvimento da disciplina.
A religião e os limites de uma disciplina secular
A formação das Relações Internacionais como campo acadêmico esteve associada à consolidação de uma determinada compreensão da política moderna. A soberania estatal e a autonomia do poder político passaram a ocupar posições centrais nas interpretações sobre a organização internacional. Nesse contexto, a secularização foi frequentemente compreendida como parte de um processo histórico no qual as instituições políticas se tornariam progressivamente independentes da autoridade religiosa.
Essa interpretação influenciou a própria maneira como a disciplina estabeleceu seus objetos de investigação. Ao privilegiar o Estado como principal unidade de análise, diferentes abordagens passaram a tratar a religião como elemento pertencente à organização interna das sociedades, cuja influência sobre a política internacional seria eventual ou indireta.
O realismo político oferece um exemplo interessante dessa orientação, embora seja necessário reconhecer as diferenças existentes entre suas formulações. Em Morgenthau (1948), a defesa da autonomia da esfera política não implica desconhecer a importância das convicções morais na vida social. Sua preocupação estava relacionada à necessidade de compreender a política a partir de categorias próprias, evitando confundir princípios universais com interesses particulares. Entretanto, o desenvolvimento posterior do neorrealismo, especialmente em Waltz (1979), deslocou a atenção para a estrutura do sistema internacional e para a distribuição das capacidades materiais entre os Estados. Nesse modelo, as características religiosas das sociedades dificilmente poderiam ocupar uma posição explicativa relevante.
O problema, contudo, não se limita às escolhas metodológicas dessas teorias. Existe uma questão anterior, relacionada à própria definição do que compreendemos como religião e política. Hurd (2008) demonstra que a separação entre essas esferas, frequentemente apresentada como característica natural das sociedades modernas, resulta de processos históricos específicos. Quando essa distinção é incorporada às teorias como um pressuposto universal, determinadas experiências políticas passam a ser interpretadas a partir de categorias que nem sempre correspondem às condições em que foram constituídas.
A marginalização da religião nas Relações Internacionais também esteve relacionada aos pressupostos epistemológicos que orientaram a formação da disciplina. A incorporação do fenômeno religioso às análises da política internacional evidencia algumas limitações das categorias tradicionalmente utilizadas para compreender as relações entre religião e poder (Nobre, 2026). Isso exige reconsiderar determinados pressupostos teóricos, sem necessariamente abandonar as contribuições das abordagens já consolidadas.
A questão, entretanto, exige cuidado. Reconhecer os limites dos pressupostos secularistas não significa negar a importância dos processos de secularização, tampouco considerar inadequadas todas as contribuições das teorias tradicionais. Significa admitir que a experiência histórica europeia, fundamental para a formação das Relações Internacionais, não oferece necessariamente parâmetros suficientes para compreender a diversidade das relações entre religião e poder político.
O que muda quando incorporamos a religião às teorias?
A crítica à marginalização da religião não exige, necessariamente, o abandono das principais teorias de Relações Internacionais. Ao contrário, algumas de suas contribuições continuam oferecendo instrumentos relevantes para compreender a atuação de atores religiosos e a influência de determinadas convicções sobre o comportamento político.
O realismo, por exemplo, permite examinar como referências religiosas podem ser utilizadas na legitimação de interesses estatais. Governos frequentemente mobilizam símbolos ou identidades religiosas para justificar decisões e fortalecer suas posições diante de determinados públicos. Entretanto, essa interpretação encontra limites quando pressupõe que os interesses políticos existem independentemente das referências religiosas utilizadas para expressá-los.
Em algumas circunstâncias, a religião participa da própria formação desses interesses. As convicções de lideranças políticas podem influenciar suas percepções sobre ameaças e a definição de prioridades internacionais. Nesses casos, reduzir a religião a um recurso discursivo significa desconsiderar a possibilidade de que ela tenha participado efetivamente do processo decisório.
O construtivismo oferece uma contribuição importante para essa discussão. Ao compreender identidades e interesses como resultados de processos sociais, Wendt (1992) abriu espaço para considerar a influência de referências culturais e normativas sobre o comportamento dos Estados. A religião pode ser incorporada a essa perspectiva na medida em que participa da construção das identidades políticas e das interpretações que orientam a atuação internacional dos diferentes atores.
Essa possibilidade, entretanto, não resolve automaticamente o problema. Reconhecer que determinada identidade religiosa influencia a maneira como um grupo compreende o mundo não explica, por si só, como essa identidade se transforma em comportamento político. É necessário identificar os processos pelos quais determinadas convicções são mobilizadas e passam a orientar decisões concretas.
Kubálková (2000), ao propor uma reflexão sobre a teologia política internacional, contribuiu para questionar a tendência de interpretar atores religiosos exclusivamente a partir de categorias seculares. Sua argumentação chama atenção para a necessidade de compreender os sistemas de significados que orientam esses atores, evitando que suas convicções sejam reduzidas antecipadamente a manifestações indiretas de interesses materiais.
Essa preocupação é particularmente relevante porque parte das dificuldades enfrentadas pelas teorias de Relações Internacionais decorre da tendência de considerar a religião como um elemento estranho à racionalidade política. Entretanto, aquilo que parece irracional a partir de determinado modelo analítico pode apresentar coerência quando examinado a partir das referências que orientam os próprios atores.
Isso não significa aceitar justificativas religiosas como explicações suficientes para qualquer comportamento. O desafio consiste precisamente em compreender como essas referências participam dos processos políticos, sem presumir sua irrelevância ou atribuir-lhes uma influência que ainda não foi demonstrada.

Reconhecer a religião não é suficiente para explicar sua influência
Nas últimas décadas, a ampliação dos estudos sobre religião e Relações Internacionais contribuiu para superar parte de sua marginalização histórica. Entretanto, esse desenvolvimento também produziu dificuldades que merecem atenção. Uma delas está relacionada à tendência de considerar a presença de elementos religiosos como evidência suficiente de sua importância causal.
A identificação de diferenças religiosas entre grupos envolvidos em um conflito, por exemplo, não demonstra necessariamente que essas diferenças constituam sua principal causa. Da mesma maneira, o fato de uma liderança política utilizar argumentos religiosos para justificar determinada decisão não significa que suas convicções tenham sido responsáveis pela formulação dessa escolha.
Hasenclever e Rittberger (2000) já chamavam atenção para esse problema ao examinar diferentes abordagens sobre a influência da religião nos conflitos políticos. Suas reflexões demonstram que as tradições religiosas podem assumir funções distintas conforme as condições em que são mobilizadas. A religião pode contribuir para intensificar antagonismos, mas também participar de iniciativas de negociação e reconciliação. Sua presença, portanto, não permite antecipar resultados políticos específicos.
Essa constatação é importante para os estudos sobre segurança internacional. Quando analisamos conflitos envolvendo comunidades religiosas, precisamos compreender como determinadas identidades se relacionam com disputas territoriais e processos históricos de exclusão. A religião pode conferir legitimidade a projetos políticos ou contribuir para a construção de antagonismos coletivos, mas sua influência depende das condições nas quais essas relações se desenvolvem.
O mesmo ocorre na política externa. A proximidade entre organizações religiosas e governos não significa necessariamente que essas organizações determinem decisões internacionais. É preciso investigar suas possibilidades de acesso aos processos decisórios e identificar em que circunstâncias conseguem modificar prioridades políticas. A coincidência entre as posições de um governo e as demandas de determinado grupo religioso pode resultar de influência efetiva, mas também de interesses compartilhados ou de condições políticas anteriores à sua aproximação.
Essas questões apontam para a necessidade de avançarmos na compreensão dos mecanismos pelos quais a religião adquire relevância política. No artigo publicado na REI, defendo que a abertura da caixa de Pandora representa uma oportunidade de reconsiderar as categorias tradicionalmente utilizadas pelas Relações Internacionais. Essa abertura, entretanto, também impõe responsabilidades analíticas. Se a marginalização da religião compromete nossa capacidade de compreender determinados fenômenos, sua incorporação indiscriminada pode produzir problemas explicativos semelhantes.
A religião não deve ser tratada como uma variável cuja influência possa ser presumida a partir de sua simples presença. Precisamos demonstrar como determinadas convicções religiosas participam da formação de interesses e em quais circunstâncias essa participação produz consequências observáveis. Também é necessário reconhecer situações nas quais fatores religiosos possuem influência limitada ou dependem de condições políticas que não são propriamente religiosas.
Essa preocupação permite aproximar os estudos sobre religião dos debates mais amplos sobre causalidade nas Ciências Sociais, contribuindo para que sua incorporação às Relações Internacionais ultrapasse o reconhecimento de uma dimensão historicamente negligenciada.
Para além do retorno da religião
A crescente atenção dedicada à religião representa um avanço importante para as Relações Internacionais. Discussões anteriormente consideradas periféricas passaram a integrar pesquisas sobre política externa, conflitos internacionais e processos de construção de identidades. Entretanto, a ampliação desse espaço não significa que os problemas teóricos associados ao fenômeno religioso tenham sido superados.
A crítica aos pressupostos secularistas da disciplina continua necessária, especialmente diante da persistência de interpretações que tratam determinadas experiências históricas como modelos universais. Ao mesmo tempo, precisamos evitar que o reconhecimento da religião produza novas generalizações, agora fundamentadas na expectativa de que ela ofereça respostas para fenômenos cuja compreensão exige considerar diferentes processos políticos.
A incorporação da religião às teorias de Relações Internacionais será mais consistente na medida em que conseguirmos reconhecer suas particularidades sem isolá-la das demais dimensões da vida social. Isso exige preservar a abertura epistemológica conquistada nas últimas décadas, acompanhando-a de investigações capazes de demonstrar sua contribuição para resultados políticos específicos.
Talvez seja justamente esse o próximo desafio do campo. Depois de décadas dedicadas a demonstrar que a religião permanece presente na política internacional, precisamos avançar na explicação das condições em que essa presença se torna politicamente relevante.
Afinal, o problema já não consiste em demonstrar que a religião importa para as Relações Internacionais, mas em compreender quando, como e por que ela importa.
Por Fábio Nobre (UEPB)
Professor do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais e da graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisa o campo da Religião e Relações Internacionais, com foco especial para a relação entre violência e religião. Doutor (2016) em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Diretor do CEPRIR e coordenador do Grupo de Pesquisa de mesmo nome (gCEPRIR – CNPq/UEPB).
Recomenda-se a leitura de
HASENCLEVER, Andreas; RITTBERGER, Volker. Does Religion Make a Difference? Theoretical Approaches to the Impact of Faith on Political Conflict. Millennium: Journal of International Studies, v. 29, n. 3, p. 641–674, 2000. https://doi.org/10.1177/03058298000290031401.
HURD, Elizabeth Shakman. The Politics of Secularism in International Relations. Princeton: Princeton University Press, 2008.
KUBÁLKOVÁ, Vendulka. Towards an International Political Theology. Millennium: Journal of International Studies, v. 29, n. 3, p. 675–704, 2000. https://doi.org/10.1177/03058298000290031501.
MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. New York: Alfred A. Knopf, 1948.
NOBRE, Fábio Rodrigo Ferreira. Abrindo a Caixa de Pandora da Religião nas Relações Internacionais: um ensaio sobre os desafios e as contribuições da variável religiosa. Revista de Estudos Internacionais, v. 17, n. 1, p. 146–169, 2026. Acessar o artigo.
PHILPOTT, Daniel. Has the Study of Global Politics Found Religion? Annual Review of Political Science, v. 12, p. 183–202, 2009. https://doi.org/10.1146/annurev.polisci.12.053006.125448.
WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.
WENDT, Alexander. Anarchy Is What States Make of It: The Social Construction of Power Politics. International Organization, v. 46, n. 2, p. 391–425, 1992. https://doi.org/10.1017/S0020818300027764.
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