
Por Fábio Nobre (PPGRI UEPB / CEPRIR)
Quando uma liderança política recorre à religião para justificar determinada decisão internacional, somos frequentemente levados a considerar duas possibilidades. A primeira é que suas convicções religiosas tenham influenciado efetivamente aquela escolha. A segunda é que o discurso religioso esteja sendo utilizado para legitimar interesses definidos por outras razões. Essa última interpretação parece particularmente próxima do realismo político, tradição teórica que atribui grande importância ao poder e à segurança dos Estados.
Entretanto, essa aparente incompatibilidade entre religião e realismo merece ser examinada com maior cuidado. Afinal, como são definidos os interesses que orientam o comportamento dos Estados? Seriam eles determinados exclusivamente pelas condições materiais do sistema internacional ou dependeriam também da maneira como os governantes interpretam a realidade política?
A questão ganha importância quando observamos Estados que incorporam referências religiosas às suas instituições ou estabelecem relações com comunidades de fé para além de suas fronteiras. Em alguns casos, essas referências parecem orientar decisões internacionais. Em outros, são subordinadas a cálculos estratégicos que ultrapassam as diferenças religiosas. Compreender essas variações exige reconhecer que o realismo não constitui uma tradição inteiramente homogênea e que sua relação com o fenômeno religioso é mais complexa do que geralmente se supõe (Sandal e James 2011).
O realismo sempre ignorou a religião?
O realismo político parte de uma preocupação fundamental com os limites impostos ao comportamento dos Estados em um ambiente internacional marcado pela competição. A ausência de uma autoridade superior capaz de garantir a segurança das unidades políticas torna a preservação do poder uma questão central. Dessa perspectiva, as decisões internacionais precisam ser compreendidas considerando as condições em que são tomadas, independentemente das justificativas apresentadas pelos governantes.
Em Hans Morgenthau (1948), essa preocupação aparece associada ao conceito de interesse definido em termos de poder. Sua formulação procura estabelecer parâmetros para compreender a política internacional sem depender exclusivamente das intenções declaradas pelos atores. Entretanto, seria equivocado concluir que Morgenthau considerava as convicções morais irrelevantes. Sua reflexão reconhecia as tensões entre princípios éticos e exigências políticas, especialmente os riscos envolvidos na identificação dos interesses de uma nação com valores supostamente universais.
Essa preocupação também estava presente no pensamento de Reinhold Niebuhr, teólogo protestante cuja reflexão sobre a política exerceu influência importante sobre o desenvolvimento do realismo norte-americano. O chamado realismo cristão partia de uma compreensão da natureza humana marcada pela consciência de seus limites morais. Para Niebuhr, grupos políticos poderiam transformar convicções particulares em justificativas para o exercício do poder, frequentemente deixando de reconhecer as contradições entre seus princípios e suas práticas (Inboden 2014).
A aproximação entre Morgenthau e Niebuhr não significa que suas formulações fossem equivalentes. Enquanto o primeiro procurava estabelecer uma teoria política centrada na análise do poder, o segundo desenvolvia uma reflexão moral profundamente influenciada por sua tradição teológica. Ainda assim, ambos compartilhavam uma preocupação com os perigos da pretensão de superioridade moral na política internacional.
Esse diálogo histórico ajuda a questionar a interpretação segundo a qual o realismo teria se desenvolvido inteiramente afastado da religião. Em determinadas vertentes, concepções religiosas participaram da própria reflexão sobre os limites da ação política, ainda que isso não tenha conduzido à formulação de explicações sistemáticas sobre a influência da religião no comportamento internacional dos Estados.
Com Kenneth Waltz (1979), entretanto, a discussão assume outra direção. O neorrealismo desloca a atenção para a estrutura do sistema internacional, privilegiando a distribuição de capacidades entre os Estados. Nesse modelo, as características internas das unidades políticas ocupam uma posição secundária na explicação dos padrões internacionais. A religião, assim como outros elementos domésticos, permanece fora do centro da análise.
Essa escolha possui implicações importantes, mas precisa ser compreendida em seus próprios termos. O neorrealismo não pretende explicar todas as decisões particulares de política externa. Seu objetivo está relacionado aos efeitos dos constrangimentos estruturais sobre o comportamento das unidades políticas. Criticar essa abordagem simplesmente por não incorporar a religião significaria exigir que ela respondesse a questões para as quais não foi originalmente formulada.
O problema surge quando explicações estruturais passam a ser consideradas suficientes para compreender decisões cuja formulação depende também de processos internos aos Estados. Nesses casos, investigar a religião pode contribuir para esclarecer aspectos que permanecem fora do alcance das interpretações predominantemente sistêmicas.

O interesse nacional existe independentemente da religião?
Uma das contribuições mais importantes do realismo está em reconhecer que os Estados não possuem liberdade irrestrita para orientar seu comportamento internacional. Sua posição diante de outras potências, as vulnerabilidades territoriais e a disponibilidade de recursos condicionam as alternativas consideradas pelos governantes. Entretanto, essas condições não eliminam a necessidade de compreender como determinadas prioridades são estabelecidas.
O próprio conceito de interesse nacional merece atenção. Embora frequentemente utilizado como se representasse uma preferência objetiva e relativamente evidente, seu conteúdo pode variar conforme as circunstâncias históricas. Morgenthau reconhecia essa possibilidade ao admitir que os significados concretos atribuídos ao poder e ao interesse dependem do contexto em que são formulados.
A religião pode participar desse processo. Convicções religiosas influenciam, em determinadas circunstâncias, a maneira como lideranças políticas interpretam ameaças ou reconhecem responsabilidades diante de comunidades situadas em outros países. Também podem estabelecer limites para decisões que, consideradas exclusivamente a partir de suas vantagens materiais, pareceriam desejáveis. Isso não significa que os governantes ajam necessariamente de acordo com suas crenças, mas que essas referências podem integrar o processo de definição dos interesses estatais (Fox 2001).
O realismo neoclássico oferece uma possibilidade interessante para compreender essa relação. Como observa Rose (1998), as pressões internacionais não se convertem automaticamente em decisões de política externa. Seus efeitos são mediados pelas percepções dos dirigentes e pelas características das instituições estatais. Essa abordagem permite examinar como referências religiosas participam da interpretação das condições externas, sem desconsiderar os constrangimentos impostos pela distribuição internacional do poder.
É importante, contudo, evitar uma conclusão precipitada. A proximidade entre governos e organizações religiosas não demonstra necessariamente que estas determinem as decisões internacionais. Da mesma maneira, a utilização de justificativas religiosas pode responder a necessidades de legitimação interna, sem que as convicções apresentadas tenham influenciado a escolha original.
A questão exige investigar como essas referências participam dos processos decisórios. Uma organização religiosa pode contribuir para modificar prioridades governamentais, mas também pode apoiar políticas previamente estabelecidas. Distinguir essas situações é fundamental para compreender quando a religião efetivamente influencia a formulação do interesse nacional.
Convicção religiosa e cálculo estratégico

A política externa iraniana oferece um exemplo particularmente interessante dessa relação. A Revolução de 1979 transformou profundamente a organização política do Estado e incorporou princípios religiosos à sua legitimidade institucional. A atuação internacional da República Islâmica passou a ser influenciada por referências ideológicas associadas ao xiismo político, embora sua trajetória também tenha sido marcada por exigências de segurança e preservação do regime.
Essa relação produziu tensões entre compromissos revolucionários e decisões pragmáticas. Salamey e Othman (2011) demonstram que a política externa iraniana não pode ser adequadamente compreendida quando reduzida exclusivamente à ideologia religiosa ou às exigências de sobrevivência estatal. A influência dessas dimensões varia conforme as circunstâncias e os objetivos perseguidos pelas lideranças políticas.
Um estudo recente de Mehran Kamrava (2026) sobre o apoio iraniano à Palestina aprofunda essa discussão. O autor identifica diferenças entre as declarações de solidariedade política e as decisões militares adotadas pelo governo iraniano durante a guerra em Gaza. Sua análise demonstra como a preocupação com a segurança do próprio território e a preservação das capacidades estratégicas condicionou respostas que poderiam parecer insuficientes diante dos compromissos ideológicos publicamente assumidos pelo regime.
O exemplo evidencia os limites de uma oposição rígida entre religião e interesse nacional. A presença de princípios religiosos na organização do Estado iraniano não significa que todas as suas decisões internacionais sejam determinadas por esses princípios. Entretanto, a adoção de comportamentos pragmáticos também não demonstra que a religião seja irrelevante para a definição de suas prioridades.
Uma situação diferente pode ser observada nas relações entre Estados Unidos e Arábia Saudita. A cooperação entre os dois países foi construída sobre interesses estratégicos que prevaleceram apesar de diferenças profundas em suas organizações políticas e tradições religiosas. A segurança regional e a importância dos recursos energéticos contribuíram para sustentar essa aproximação ao longo de décadas.
Entretanto, a dimensão religiosa dessa relação não esteve inteiramente ausente. Rachel Bronson (2005) demonstra que, durante a Guerra Fria, a identidade religiosa saudita chegou a representar um elemento favorável aos interesses norte-americanos, especialmente no contexto da oposição ao comunismo e ao nacionalismo árabe secular. Posteriormente, aspectos dessa mesma relação passaram a produzir dificuldades políticas para Washington.
O caso mostra que a religião pode adquirir significados estratégicos diferentes conforme o contexto internacional. Sua importância não decorre necessariamente da existência de identidades compartilhadas entre os Estados. Em determinadas circunstâncias, as características religiosas de um parceiro podem representar uma vantagem para objetivos definidos em termos de poder e segurança.
Esses exemplos também ajudam a compreender por que seria inadequado tratar a religião como uma força necessariamente contrária à racionalidade estratégica. Convicções religiosas podem participar da definição das prioridades estatais, enquanto organizações e identidades religiosas podem ser incorporadas aos próprios instrumentos de política externa.
O que o realismo pode explicar sobre a religião?
A aproximação entre religião e realismo não exige abandonar as principais contribuições dessa tradição teórica. A importância atribuída às relações de poder continua fundamental para compreender por que determinados Estados possuem maior capacidade de realizar seus objetivos internacionais e por que governos frequentemente precisam ajustar suas preferências às condições externas.
Entretanto, reconhecer esses constrangimentos não significa considerar que os interesses nacionais sejam definidos independentemente das referências que orientam os atores políticos. Uma análise que procura explicar determinada decisão precisa reconhecer a diferença entre as condições que limitam as escolhas e os processos pelos quais essas escolhas são formuladas.
Essa distinção permite compreender melhor a contribuição da religião. Em alguns contextos, convicções religiosas podem influenciar a definição de ameaças ou favorecer determinadas alianças. Em outros, podem atuar como instrumentos de legitimação de decisões cuja formulação responde predominantemente a interesses estratégicos. Também existem situações nas quais sua influência é limitada pelos próprios constrangimentos internacionais.
A identificação dessas possibilidades, entretanto, não substitui a investigação empírica. Demonstrar a influência religiosa exige examinar as condições nas quais determinadas convicções participaram da formulação das decisões e considerar explicações alternativas. O objetivo não deve ser encontrar a religião em todos os acontecimentos, mas reconhecer sua contribuição quando existem razões suficientes para atribuir-lhe relevância explicativa.
Nesse sentido, o diálogo entre realismo e religião pode ser mais produtivo quando reconhecemos os limites das diferentes formulações realistas. O realismo clássico permite uma reflexão mais ampla sobre as relações entre convicções morais e comportamento político. O neorrealismo oferece instrumentos para compreender os constrangimentos estruturais que condicionam os Estados. Já o realismo neoclássico abre possibilidades para investigar como essas pressões são interpretadas no interior das instituições políticas (Sandal e James 2011; Rose 1998).
A religião encontra lugares distintos nessas abordagens. Sua incorporação, portanto, depende das questões que pretendemos responder e da capacidade de demonstrar empiricamente sua influência.
O realismo nos oferece uma advertência importante sobre os limites do poder e os riscos de interpretar a política internacional exclusivamente a partir dos princípios declarados pelos governantes. Entretanto, essa advertência não deve nos conduzir a desconsiderar as convicções que participam da formação de suas escolhas.
A religião tem lugar no realismo político justamente porque os interesses nacionais, embora condicionados pelas relações de poder, são formulados por atores que interpretam a realidade a partir de experiências históricas e referências próprias. Compreender essas interpretações permite explicar por que Estados submetidos a constrangimentos semelhantes nem sempre adotam as mesmas decisões.
Por Fábio Nobre (UEPB)
Professor do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais e da graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisa o campo da Religião e Relações Internacionais, com foco especial para a relação entre violência e religião. Doutor (2016) em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Diretor do CEPRIR e coordenador do Grupo de Pesquisa de mesmo nome (gCEPRIR – CNPq/UEPB).
Referências bibliográficas
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KAMRAVA, Mehran. 2026. “Iranian Support for Palestine: The Clash of Idealism and Realism.” International Politics. https://doi.org/10.1057/s41311-026-00768-3.
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ROSE, Gideon. 1998. “Neoclassical Realism and Theories of Foreign Policy.” World Politics 51 (1): 144–172. https://doi.org/10.1017/S0043887100007814.
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SANDAL, Nukhet A., e Patrick James. 2011. “Religion and International Relations Theory: Towards a Mutual Understanding.” European Journal of International Relations 17 (1): 3–25. https://doi.org/10.1177/1354066110364304.
WALTZ, Kenneth N. 1979. Theory of International Politics. Reading, MA: Addison-Wesley.
Este texto não deve ser reproduzido sem permissão.
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Como citar este texto
NOBRE, Fábio. A religião tem lugar no realismo político? CEPRIR, 2 nov. 2026. Disponível em: https://ceprir.org/?p=3235.
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