Debates

A Religião como Política Estratégica nas Plataformas Digitais 

Por Amanda Silva (UEPB/CEPRIR)

Do rádio ao algoritmo 

Em contraste com o Pentecostalismo Clássico, o Neopentecostalismo se caracteriza, entre outros aspectos, pela intensa utilização dos meios de comunicação, pela Teologia da Prosperidade, pela centralidade da guerra espiritual e pela crescente inserção na esfera pública e política. Para compreender a evolução das estratégias de mobilização política do Neopentecostalismo no Brasil, é necessário compreender como a comunicação religiosa seestendeu para além dos limites materiais e institucionais das igrejas para migrar para o ambiente da Internet. Historicamente, a consolidação desse movimento se estabeleceu por meios de comunicação de massa tradicionais, como orádio e, posteriormente, pela televisão aberta com a aquisição do Grupo Record por Edir Macedo, líder e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.  

Na conjuntura atual, entretanto, esse processo ganha nova intensidade com aquilo que pode ser chamado de ‘igreja sem paredes’: uma experiência religiosa que já não se limita ao templo, ao culto presencial ou à autoridade pastoral exercida em um espaço físico. Tal expressão evidencia a dificuldade de delimitar onde começa e termina a experiência religiosa mediada pela internet. Nesse contexto de expansão da experiência religiosa, as mídias digitais passam a funcionar não apenas como ferramentas de difusão e evangelização, mas também como espaços de engajamento comunitário entre fiéis, pois o acesso às comunidades religiosas pode ser realizado de qualquer lugar, sem a necessidade da presença física em um culto, bastando o acesso às plataformas digitais para que os indivíduos mantenham vínculos em comunidades que compartilham valores e crenças semelhantes. 

Guerra espiritual e engajamento digital 

Essa transformação da experiência religiosa também pode ser compreendida através de mudanças mais amplas ocorridas no consumo de informações pela sociedade. De acordo com o Digital News Report (2024), publicado pelo Instituto Reuters, as plataformas digitais se consolidaram como um dos principais meios de acesso a notícias e informações políticas no Brasil e no mundo. Assim, evidenciando que as redes sociais deixaram de ocupar um papel restrito ao entretenimento e passaram a constituir espaços centrais para a formação da opinião pública, para o debate político e para a circulação de narrativas capazes de influenciar nas decisões eleitorais. Nesse contexto, compreender a atuação do Neopentecostalismo na Internet significa analisar sua inserção em um ambiente que hoje exerce papel estratégico na disputa por mobilização política. 

Sob uma perspectiva antropológica, o ambiente online não constitui apenas um espaço de circulação de informações, mas também um ambiente de produção e intensificação de laços, na difusão de pânicos morais e no fortalecimento de identidades coletivas. Nesse contexto, práticas cotidianas nas redes sociais, como curtir, comentar e compartilhar conteúdos, podem ser ressignificadas como formas de participação política e, em determinados contextos religiosos, como demonstrações públicas de fé e compromisso moral. A lógica de funcionamento das plataformas digitais é estruturada para estimular o engajamento dos usuários e privilegiar conteúdos capazes de gerar maior interação. Por isso, discursos baseados em dicotomias morais, antagonismos e ameaças existenciais, elementos presentes em diferentes segmentos do Neopentecostalismo, especialmente naqueles influenciados pela Teologia do Domínio, tendem a circular com facilidade nesses ambientes (Xavier, 2024). Nesse cenário, a narrativa da guerra espiritual deixa de se restringir ao plano unicamente religioso e passa a ser mobilizada também no ambiente digital, transformando as redes sociais em espaços de disputa simbólica e política, nos quais parte dos fiéis assumem papel ativo na difusão de conteúdos e na defesa de determinadas agendas contra o “mal”. 

 A relação porosa entre mobilização digital e ação nas ruas ficou evidente durante a visita de Judith Butler ao Brasil, em novembro de 2017.. Na ocasião, a visita da filósofa em um seminário acadêmico em São Paulo, desencadeou uma intensa campanha de desinformação e ataques nas redes sociais, amplificada por plataformas conservadoras transnacionais, como a CitizenGO, vinculada ao movimento espanhol Hazte Oír, esse fluxo de ódio digital, se materializou de forma imediata nos espaços físicos por meio de manifestações agressivas em frente ao local do evento. Conforme analisam Corrêa e Kalil (2021), o ataque a Butler constituiu um importante marco dentro desses novos termos de fazer política no Brasil e no mundo, demonstrando a capacidade de converter a mobilização promovida nas plataformas digitais em ações coletivas no plano material. 

Nikolas Ferreira e a Política como performance moral 

É nesse contexto, de crescente centralidade das plataformas digitais na esfera política, que se consolida a atuação do deputado federal Nikolas Ferreira, eleito com votação recorde pelo Partido Liberal (PL) de Minas Gerais nas eleições gerais de 2022. Nikolas é membro da Igreja Batista da Lagoinha, denominação que, embora de origem batista, tem incorporado características associadas ao Neopentecostalismo contemporâneo. O parlamentar opera sob a lógica de um “influenciador digital da fé”, na fronteira entre liderança política, performance religiosa e alcance de influenciador digital. Com forte presença nas redes sociais, Nikolas utiliza de plataformas como TikTok, Instagram e YouTube para difundir conteúdos voltados, sobretudo, a debates morais convertendo sua expressiva audiência digital em capital político através do pânico moral. Por meio de vídeos curtos, linguagem acessível e de forte apelo emocional, temas políticos complexos são frequentemente apresentados de forma reducionista sob uma lógica da chamada guerra cultural contemporânea. Nesse processo, o elevado engajamento de seus seguidores em suas publicações contribui para ampliar o alcance dessas narrativas, que passam a ser interpretadas por parte de sua audiência como formas de defesa da família, da religião e de valores considerados tradicionais diante de transformações sociais percebidas como ameaçadoras. 

O sucesso da tradução de disputas institucionais para a lógica da guerra cultural se apoia no que Corrêa e Kalil (2021) identificam como a versatilidade estratégica das pautas “anti-gênero”. Segundo as autoras, a expressão “ideologia de gênero” opera, na América Latina, como uma espécie de “cesta vazia”, ou um significante flexível, capaz de reunir diferentes medos sociais, pânicos morais e inimigos do imaginário comum representados como ameaças em torno de um mesmo discurso. Ao mobilizar essa narrativa, a circulação por meio do ativismo digital consegue construir uma aliança que transcende fronteiras denominacionais, unindo católicos conservadores e neopentecostais em torno de uma agenda comum, de oposição a determinadas pautas sociais e culturais. Nesse sentido, essa mobilização na esfera digital não se configura como um processo exclusivamente espontâneo e orgânico.Em muitos casos, ela é orquestrada por redes transnacionais especializadas em comunicação política e mobilização digital, responsáveis pela circulação de repertórios políticos coordenados na América Latina (Corrêa; Kalil, 2021).  

A eficácia da atuação de lideranças religiosas e políticas nas mídias digitais também encontra apoio em dados do cenário eleitoral recente, visto que pesquisas do instituto Datafolha realizadas no período que antecedeu o segundo turno das eleições presidenciais de 2022 indicaram que 49% dos eleitores brasileiros afirmaram considerar a identidade religiosa dos candidatos um fator de grande importância para a sua decisão de voto (Ferreira; Mota; Souza, 2024). Esses dados reforçam a relevância política da religião no contexto eleitoral brasileiro e dialogam com as análises de Smith (2019) acerca das fragilidades estruturais da democracia brasileira, para a autora, a volatilidade e a fragmentação do sistema partidário brasileiro favorecem o fortalecimento da atuação de lideranças religiosas como importantes mediadores da mobilização política, na função de conduzir e organizar as “guerras culturais” e os afastamentos morais na sociedade. Diante do exposto, as plataformas digitais ampliam a capacidade dessas lideranças de comunicar suas agendas diretamente ao público, reduzindo a dependência das mediações institucionais tradicionais e fortalecendo vínculos políticos construídos em torno de identidades religiosas e morais (Smith, 2019).  

Do Feed às Instituições  

Ademais, a  dinâmica de mobilização de massas construída dentro das plataformas digitais esteve presente também nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, a organização dos acampamentos em frente aos quartéismilitares, a convocação de manifestantes para a invasão da sede dos Três Poderes em Brasília, ocorreram em grande medida, por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais, ambientes onde a contestação do resultado eleitoral foi frequentemente associada a discursos religiosos com ideais de uma “missão divina” voltada à defesa da nação e seus valores. Segundo o relatório da CPMI do 8 de janeiro, as plataformas digitais desempenharam papel central na articulação e difusão de conteúdos relacionados aos atos, evidenciando o potencial dessas ferramentas para conectar indivíduos, ampliar narrativas e facilitar ações coletivas. Sendo assim, a Internet se mostra um elemento relevante para compreender como determinados grupos, como o Neopentecostalismo ampliaram sua capacidade de mobilização, evidenciando que disputas construídas inicialmente nas redes sociais podem produzir efeitos concretos na esfera pública e nas instituições democráticas. 


Por Amanda Alves da Silva (UEPB/CEPRIR) 

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Interessada em temas de religião e política externa, segurança alimentar, desenvolvimento internacional e estudos de gênero. 


Recomenda-se a leitura de:  

CORRÊA, Sonia; KALIL, Isabela. Brasil. In: CORRÊA, Sonia; KALIL, Isabela (org.). Políticas Antigênero na América Latina: Estudos de caso nacionais. Rio de Janeiro: Sexuality Policy Watch, 2021. p. 70-101. Disponível em: https://sxpolitics.org/. Acesso em: 22 jun. 2026.  

BRITISH BROADCASTING CORPORATION. Digital News Report 2024. Oxford: Reuters Institute for the Study of Journalism, 2024. Disponível em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report-2024. Acesso em: 22 jun. 2026. 

BRASIL. Congresso Nacional. Relatório Final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Atos de 8 de Janeiro de 2023. Brasília, DF: Senado Federal/Câmara dos Deputados, 2023. 

FERREIRA, Maria Alice S.; MOTA, Amanda Barcelos; SOUZA, Thayla. The Influence of Religion on the Second Round of the 2022 Presidential Elections. In: VON BÜLOW, Marisa et al (org.). Democracy Under Attack: LatinAmerican Societies. Cham: Springer Nature Switzerland, 2024. p. 75-100. 

SMITH, Amy Erica. Religion and Brazilian Democracy: Mobilizing the People of God. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.  

XAVIER, Donizete. Teologia do domínio: a influência religiosa e o perigo da imagem do caos. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 54, n. 1, p. 1-11, jan./dez. 2024. 

Deixe um comentário