Debates

Religião e crime organizado: reflexões sobre a narcorreligiosidade no Brasil

Por Jenyffer Eduarda (UEPB/CEPRIR)

A relação entre segmentos do neopentecostalismo e o crime organizado tem se tornado um aspecto crescente no contexto religioso da sociedade brasileira. A ascensão de traficantes evangélicos no Brasil tem destacado uma mescla da influência da religião dentro do crime organizado, que passou a incorporar o cristianismo no dia a dia da favela, nas práticas do movimento, e a buscar ajuda na palavra de Deus e dos líderes das igrejas.

No atual contexto contemporâneo, a conversão dos traficantes dialoga diretamente com o cotidiano violento das periferias, onde o apego espiritual assegura, gera conforto e “proteção” aos indivíduos para permanecer atuando nas práticas ilícitas, que, diferentemente do pentecostalismo clássico, não implica necessariamente o abandono das atividades criminosas. Esse contexto expõe o surgimento dos “traficantes de Jesus”, indivíduos que se identificam simultaneamente como criminosos e fiéis, traçando uma linha que permeia entre o sagrado da igreja e o profano do mundo do crime.

O ambiente que, até os anos 80, era dominado e marcado pela figura do “traficante rei”, que propagava sua fé através das religiões de matriz africana, agora está voltado para o mundo neopentecostal e expõe a reconfiguração de poder baseada nas transformações sociais ocorridas nos últimos anos, que reforçam a dominação territorial e a soberania nas regiões suburbanas por parte dos criminosos. Em meados dos anos 2000, a transição religiosa ocorreu e passou, gradativamente, a substituir as imagens dos santos ligados ao candomblé por frases bíblicas, salmos ou a frase “Jesus é o dono do lugar”, reforçando que a mudança não é somente estética, mas sinaliza e enfatiza uma nova correlação que une elementos da fé evangélica ao submundo.

Segundo alguns pesquisadores, uma das bases dessa relação narcorreligiosa está na leitura da figura do Deus de Israel apresentada no Antigo Testamento, que retrata a figura divina como um guerreiro valente, feroz e vitorioso, que luta contra os seus inimigos de acordo com a sua verdade e utiliza práticas de guerra e violência para buscar o triunfo. Essa leitura pode legitimar as práticas de conquista e êxito buscadas dentro do mundo criminoso e também permitir a utilização da violência como uma extensão das batalhas mostradas na Bíblia, utilizando o conceito de “justiça divina” para reafirmar determinadas ações realizadas.

O caso do “Peixão”, Álvaro Malaquias Santarosa, é o retrato mais emblemático dessa conexão, pois o líder do Complexo de Israel, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, revela a vida dupla do pastor criminoso que utiliza as profecias bíblicas para traçar estratégias de dominação e administração dentro da comunidade. Sob sua direção, a ética local passou a ter traços evangélicos incluídos na rotina, como a perseguição às religiões de matriz africana, a proibição de missas católicas, do crack e a conversão de moradores ao evangelho, fundamentadas numa lógica de “limpeza espiritual” oriunda da crença evangélica, a fim de “afastar” as forças do mal da localidade e ampliar o seu rebanho. Conjuntamente, a ascensão do culto nas áreas mais vulneráveis vem da ausência do Estado, que não oferece proteção aos moradores, investimento e é ineficiente na realização de políticas públicas para essas famílias, que acabam enxergando nas igrejas uma fonte de ajuda. De acordo com Bruno Paes Manso, autor do livro A Fé e o Fuzil: Crime e Religião no Brasil do Século XXI, as igrejas funcionam como centro de acolhimento e auxílio para os moradores, trazendo uma sensação de pertencimento para eles. Porém, essa nova convivência com as facções acaba nutrindo esse vínculo, que exibe uma nova visão do indivíduo social para com o crime, que atua fazendo doações, ajudando a comunidade e realizando obras para a igreja e os fiéis, baseado na teologia da prosperidade, que, segundo parte da literatura, também contribui para uma visão de empreendedorismo ao traçar uma estrutura própria.

No meio político, parte da bancada evangélica na Câmara busca frequentemente restringir direitos e liberdades em nome de uma agenda voltada para os valores cristãos. No plano político, Viviane Costa entende que o crescimento desse acontecimento se deve aos projetos políticos que utilizam figuras religiosas, cujo objetivo é garantir votos e, assim, poder e controle social em nome de Deus e da religião. Essa união de fé, projetos de poder e crime organizado mostra como a religiosidade se tornou uma porta de fácil acesso nas dinâmicas políticas e sociais do Brasil nos últimos anos.

A narcorreligiosidade brasileira é um fato complexo e diverso que desafia a atuação de políticas públicas tradicionais. A fusão entre as disputas espirituais e territoriais cria uma nova estrutura de poder onde o material e o divino se misturam, dificultando a realização de ações de laicidade por parte do Estado. A compreensão desse fenômeno acerca da sociedade periférica atual é essencial para entender a atuação da democracia nesses espaços e como se deve evitar que ela seja afetada por um discurso que usa a fé dos fiéis para garantir controle e torná-los submissos às suas vontades, convertendo a religião em uma ferramenta de opressão e justificando-a para praticar crueldade e exclusão.


Por Jennyfer Eduarda de Luna Maciel (UEPB/CEPRIR) 

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba. Integrante do Grupo de Pesquisa do Centro de Estudos em Política, Relações Internacionais e Religião (CEPRIR – CNPq/UEPB). Interessada em temas de diplomacia, política internacional e religião nas relações internacionais.


Recomenda-se a leitura de:  

Bruno Paes Manso (2023). A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século XXI . Ed. Todavia.

Christina Vital da Cunha (2015). Oração de Traficante: uma etnografia. Rio de Janeiro: Garamond.

Viviane Costa (2023). O Deus do Traficante, o Traficante de Deus: Ethos de Guerra e Discurso Religioso. In: Costa, V. Traficantes evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus. Thomas Nelson Brasil.

Este texto não deve ser reproduzido sem permissão



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